30 de abr de 2009

simpaticices

Diálogo entre o tradutor Eric Nepomuceno e o escritor Gabriel García Márquez

ERIC Tem uma hora lá em que você escreve que ficou feliz porque ganhou um caderno de "kalella". O que é isso?
GABO Não, eu não escrevi isso.
ERIC Claro que escreveu, ache aí, na pág. tal...
GABO Peraí. Porra, acho que chamei assim porque achei bonito. Como você colocou em português?
ERIC Coloquei "caderno de kalella".
GABO Não quer dizer nada em português?
ERIC Não.
GABO Então tudo bem, porque em castelhano também não quer dizer nada.

veja aqui a íntegra dessa delícia.

os 200 anos de darwin, hemus/ediouro

em le deuil, citei algumas supostas traduções de eduardo nunes fonseca que a editora hemus licenciou para a ediouro. faço agora uma retificação: além de a cidade antiga, de fustel de coulanges, uma outra dita "tradução" da hemus que está na ediouro e que, a meu ver, consiste num flagrante atentado à boa-fé do leitor é a origem das espécies, de darwin.

a tradução da hemus licenciada para a ediouro está em nome de eduardo fonseca, e tem tido inúmeras reedições e reimpressões nas duas editoras. salta à vista a inequívoca semelhança com a tradução do médico português joaquim dá mesquita paul, publicada em 1913 pela livraria chardron, lello & irmão editores, no porto. aliás, para quem se interessar, o portal da ediouro disponibiliza uma prévia do livro no googlebooks e a tradução de joaquim paul está disponível para download gratuito na web.


seguem-se, a título comparativo, apenas dois parágrafos, o primeiro e o último do livro:

1. joaquim dá mesquita paul:
Proponho-me noticiar a largos traços o progresso da opinião relativamente à origem das espécies. Até há bem pouco tempo, a maior parte dos naturalistas supunha que as espécies eram produções imutáveis criadas separadamente. Numerosos sábios defenderam habilmente esta hipótese. Outros, pelo contrário, admitiam que as espécies provinham de formas preexistentes por intermédio de geração regular. Pondo de lado as alusões que, a tal respeito, se encontram nos autores antigos,1 Buffon foi o primeiro que, nos tempos modernos, tratou este assunto de um modo essencialmente científico. Todavia, como as suas opiniões variavam muito de época para época, e não trata nem das causas, nem dos meios de transformação da espécie, é inútil entrar aqui em maiores minudências a respeito dos seus trabalhos.
(1) Aristóteles, nas suas «Physicae Auscultationes» (lib. II, cap. VIII, 2), depois de ter notado que a chuva não cai para fazer crescer o trigo como não cai para o deteriorar quando o rendeiro o bate nas eiras, aplica o mesmo argumento aos organismos e acrescenta (foi M. Clair Grece que me notou esta passagem): «Qual a razão por que as diferentes partes (do corpo) não teriam na natureza estas relações puramente acidentais? Os dentes, por exemplo, crescem necessariamente incisivos na parte anterior da boca, para dividir os alimentos; os maiores, planos, servem para mastigar; portanto não foram feitos para este fim, e esta forma é o resultado de um acidente. O mesmo se diz para os outros órgãos que parecem adaptados a
determinado acto. Por toda a parte, pois, todas as coisas reunidas (isto é, o conjunto das partes de um todo) são constituídas como se tivessem sido feitas com vista em algum desiderato; estas formas de uma maneira apropriada, por uma espontaneidade interna, são conservadas, enquanto que, no caso contrário, têm desaparecido e desaparecem ainda». Encontra-se aqui um esboço dos princípios da selecção natural; mas as observações sobre a conformação dos dentes indicam quão pouco Aristóteles compreendia estes princípios.

2. eduardo nunes fonseca:
Proponho-me noticiar a largos traços o progresso da opinião referente à origem das espécies. Até há bem pouco tempo, a maioria dos naturalistas admitia que as espécies eram produções imutáveis criadas separadamente. Numerosos cientistas defenderam habilmente esta possibilidade. Outros, pelo contrário, admitiam que as espécies provinham de formas preexistentes através de geração regular. Deixando de lado as alusões que, a tal respeito, se encontram nos autores antigos,1 Buffon foi o primeiro nos tempos modernos, a tratar este assunto de maneira essencialmente científica. Contudo, como as suas opiniões variavam muito de época para época, e não trata nem das causas, nem dos meios de transformação da espécie, é inútil entrar aqui em minúcias com referência aos seus trabalhos.
(1) Aristóteles nas suas Physicae Auscultationes (lib. II, cap. VIII, 2), depois de ter observado que a chuva não cai para fazer crescer o trigo como não cai para o deteriorar quando o rendeiro o bate nas eiras, aplica o mesmo argumento aos organismos e acrescenta (foi M. Clair Grece que me anotou esta passagem): «Qual a razão por que as diferentes partes (do corpo) não teriam na natureza estas relações puramente acidentais? Os dentes, por exemplo, crescem necessariamente incisivos na parte anterior da boca, para dividir os alimentos; os maiores, planos, servem para mastigar; portanto não foram feitos para este fim, e esta forma é o resultado de um acidente. O mesmo se diz para os outros órgãos que parecem adaptados a determinado ato. Por toda parte, pois, todas as coisas reunidas (isto é, o conjunto das partes de um todo) são constituídas como se tivessem sido feitas com vista em algum desiderato; estas formas de uma maneira apropriada, por uma espontaneidade interna, são conservadas, enquanto que, no caso contrário, desapareceram e desaparecem ainda». Encontra-se aqui um esboço dos princípios da seleção natural; mas as observações sobre a conformação dos dentes indicam quão pouco Aristóteles compreendia estes princípios.

1. joaquim dá mesquita paul:
É interessante contemplar uma ribeira luxuriante, atapetada com numerosas plantas pertencentes a numerosas espécies, abrigando aves que cantam nos ramos, insectos variados que volitam aqui e ali, vermes que rastejam na terra húmida, se se pensar que estas formas tão admiravelmente construídas, tão diferentemente conformadas, e dependentes umas das outras de uma maneira tão complexa, têm sido todas produzidas por leis que actuam em volta de nós. Estas leis, tomadas no seu sentido mais lato, são: a lei do crescimento e reprodução; a lei da hereditariedade que implica quase a lei de reprodução; a lei de variabilidade, resultante da acção directa e indirecta das condições de existência, do uso e não uso; a lei da multiplicação das espécies em razão bastante elevada para trazer a luta pela existência, que tem como consequência a selecção natural, que determina a divergência de caracteres, a extinção de formas menos aperfeiçoadas. O resultado directo desta guerra da natureza que se traduz pela fome e pela morte, é, pois, o facto mais admirável que podemos conceber, a saber: a produção de animais superiores. Não há uma verdadeira grandeza nesta forma de considerar a vida, com os seus poderes diversos atribuídos primitivamente pelo Criador a um pequeno número de formas, ou mesmo a uma só? Ora, enquanto que o nosso planeta, obedecendo à lei fixa da gravitação, continua a girar na sua órbita, uma quantidade infinita de belas e admiráveis formas, saídas de um começo tão simples, não têm cessado de se desenvolver e desenvolvem-se ainda!

2. eduardo nunes fonseca:
É interessante contemplar uma ribeira exuberante, atapetada com numerosas plantas pertencentes a numerosas espécies, abrigando aves que cantam nos galhos, insetos variados que saltitam aqui e ali, vermes que rastejam na terra úmida, se se pensar que estas formas tão admiravelmente construídas, tão diferentemente conformadas, e dependentes umas das outras de uma maneira tão complicada, foram todas produzidas por leis que atuam ao nosso redor. Estas leis, tomadas no seu sentido mais amplo, são: a lei do crescimento e reprodução; a lei da hereditariedade de que implica [] a lei de reprodução; a lei de variabilidade, resultante da acção direta e indireta das condições de vida, do uso e não-uso; a lei da multiplicação das espécies em razão bastante elevada para provocar a luta pela sobrevivência, que tem como consequência a seleção natural, que determina a divergência de caracteres, a extinção de formas menos aperfeiçoadas. O resultado direto desta guerra da natureza que se traduz pela fome e pela morte, é, pois, o fato mais admirável que podemos conceber, a saber: a produção de animais superiores. Não há uma verdadeira grandeza nesta forma de considerar a vida, com os seus poderes diversos atribuídos primitivamente pelo Criador a um pequeno número de formas, ou mesmo a uma só? Ora, enquanto que o nosso planeta, obedecendo à lei fixa da gravitação, continua a girar na sua órbita, uma quantidade infinita de belas e admiráveis formas, originadas de um começo tão simples, não cessou de se desenvolver e desenvolve-se ainda!

escolhi este último parágrafo também por uma interessante observação adicional, relatada pelo físico carlos fiolhais, no blog coletivo de rerum natura, e que reproduzo aqui:

O Dr. José Feijó, Comissário da Exposição sobre Darwin, na Fundação Gulbenkian, chamou-me a atenção para o facto de na edição original não haver esta referência ao Criador, na penúltima frase... O leitor poderá verificar isso mesmo, lendo o original inglês:

It is interesting to contemplate an entangled bank, clothed with many plants of many kinds, with birds singing on the bushes, with various insects flitting about, and with worms crawling through the damp earth, and to reflect that these elaborately constructed forms, so different from each other, and dependent on each other in so complex a manner, have all been produced by laws acting around us. These laws, taken in the largest sense, being Growth with Reproduction; inheritance which is almost implied by reproduction; Variability from the indirect and direct action of the external conditions of life, and from use and disuse; a Ratio of Increase so high as to lead to a Struggle for Life, and as a consequence to Natural Selection, entailing Divergence of Character and the Extinction of less-improved forms. Thus, from the war of nature, from famine and death, the most exalted object which we are capable of conceiving, namely, the production of the higher animals, directly follows. There is grandeur in this view of life, with its several powers, having been originally breathed into a few forms or into one; and that, whilst this planet has gone cycling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being, evolved.

a ediouro está ciente do fato desde dezembro de 2008, quando enviei um e-mail alertando-a do problema. espero de todo o coração que ela tome providências junto a nós leitores, pois esse descaso em relação ao público consumidor e a toda a sociedade é realmente contristador.

imagem: http://dererummundi.blogspot.com

atualização feita em 18 de outubro de 2009:

um leitor me informa que apenas a primeira edição da origem das espécies não trazia a referência ao Criador. assim, o motivo pelo qual eu tinha escolhido o último parágrafo como exemplo da identidade entre a secular tradução de joaquim dá mesquita paul e a pretensa tradução de eduardo nunes fonseca perde sua razão de ser.

apresento, então, outros trechos para ilustrar o tema deste post. usarei como fonte do original a edição da universidade da pensilvânia, disponível em http://www2.hn.psu.edu/faculty/jmanis/darwin/originspecies.pdf

conforme dito acima a edição de joaquim dá mesquita paul se encontra em: http://www.4shared.com/get/23646920/1962dc99/Charles_Darwin_-_A_Origem_das_Espcies.html;jsessionid=D1A6327C7C1707E18F50FF2F8625DFCA.dc156

a edição da hemus que tenho em mãos não traz data, e a edição citada da ediouro se encontra em:
http://books.google.com.br/books?id=WYOwnMq3x9MC&pg=PA3&dq=origem+das+esp%C3%A9cies+ediouro&ei=Sah4Sq2LNqbAygTw7q2TAw#v=onepage&q=&f=false

Dá Mesquita Paul:
É na excelente história de Isidore Geoffroy Saint-Hilaire (”Hist. Nat. Générale”, 1859, t. II, p. 405) que encontrei a data da primeira publicação de Lamarck; esta obra contém também um resumo das conclusões de Buffon sobre o mesmo assunto. É curioso ver quanto o Dr. Erasmo Darwin, meu avô, na sua «Zoonomia» (vol. I, p. 500-510), publicada em 1794, antecedeu Lamarck nas suas ideias e seus erros. Segundo Isidore Geoffroy, Goethe partilhava completamente as mesmas ideias, como prova a introdução de uma obra escrita em 1794 e 1795, mas publicada muito mais tarde. Insistiu sobre este ponto («Goethe als Naturforscher», pelo Dr. Karl Meding, p. 34), que os naturalistas terão de procurar, por exemplo, como os bois e carneiros adquiriram os cornos, e não para que servem, É um caso bastante singular a aparição quase simultânea de opiniões semelhantes, porque se vê que Goethe na Alemanha, o Dr. Darwin na Inglaterra, e Geoffroy Saint-Hilaire em França, chegam, nos anos de 1794-1795, à mesma conclusão sobre a origem das espécies.

Eduardo Nunes Fonseca:
É na excelente história de Isidore Geoffroy Saint-Hilaire (Hist. Nat. Générale, 1859, t. II, p. 405) que encontrei a data da primeira publicação de Lamarck; esta obra contém também um resumo das conclusões de Buffon sobre o mesmo assunto. É curioso ver quanto o Dr. Erasmo Darwin, meu avô, na sua «Zoonomia» (vol. I, p. 500-510), publicada em 1794, antecedeu Lamarck nas suas idéias e seus erros. Segundo Isidore Geoffroy, Goethe partilhava completamente as mesmas idéias, como prova a introdução de uma obra escrita em 1794 e 1795, mas publicada muito mais tarde. Insistiu sobre este ponto (Goethe als Naturforscher, pelo Dr. Karl Meding, p. 34), que os naturalistas terão de procurar, por exemplo, como os bois e carneiros adquiriram os cornos, e não para que servem.* É um caso bastante singular a aparição quase simultânea de opiniões semelhantes, porque se vê que Goethe na Alemanha, o Dr. Darwin na Inglaterra, e Geoffroy Sant[sic]-Hilaire na França, chegam, nos anos de 1794-1795, à mesma conclusão sobre a origem das espécies.
* curiosamente, na edição da ediouro, está "como os bois e carneiros adquiriram os cornos, e para que servem".

Joaquim Dá Mesquita Paul:
Na sua obra Nature of Limbs, p. 86, o professor Owen escrevia em 1849: «A ideia arquétipo está encarnada no nosso planeta por manifestações diversas, muito tempo antes da existência das espécies animais de que são actualmente a expressão. Mas, até agora, ignoramos inteiramente a que leis naturais ou a que causas secundárias têm sido submetidas a sucessão regular e a progressão destes fenómenos orgânicos». No seu discurso na Associação Britânica, em 1858, fala (p. 51) do «axioma da contínua potência criadora, ou do destino preordenado das coisas vivas». Mais adiante, a propósito da distribuição geográfica, acrescenta: «Estes fenómenos abalam a crença em que estávamos de que o aptérix da Nova Zelândia e o “tetras urogallus L.” da Inglaterra tenham sido criações distintas feitas numa ilha e só para ela. É útil, além disso, lembrar sempre que o zoólogo atribui o nome de criação ao processo sobre o qual nada se conhece». Desenvolve esta ideia acrescentando que todas as vezes que um «zoólogo cita exemplos, como o precedente, para provar uma criação distinta numa ilha e para ela, quer dizer somente que não sabe como o “tetras urogallus L.” se encontra exclusivamente neste lugar, e que esta maneira de exprimir a sua ignorância implica ao mesmo tempo a crença numa grande causa criadora primitiva, à qual a ave, assim como as ilhas, devem a sua origem». Se nós relacionarmos as frases pronunciadas no seu discurso umas com as outras, parece que em 1858 o célebre naturalista não estava convencido que o aptérix e o “tetras urogallus L.” tenham aparecido pela primeira vez nos seus países respectivos, sem que se possa explicar como e porquê.

Eduardo Nunes Fonseca:
Na sua obra Nature of Limbs, p. 86, o professor Owen escrevia em 1849: «A idéia arquétipo está encarnada no nosso planeta por manifestações diversas, muito tempo antes da existência das espécies animais de que são atualmente a expressão. Mas, até agora, ignoramos inteiramente a que leis naturais ou a que causas secundárias têm sido submetidas a sucessão regular e a progressão destes fenômenos orgânicos». No seu discurso na Associação Britânica, em 1858, fala (p. 51) do «axioma da contínua potência criadora, ou do destino preordenado das coisas vivas». Mais adiante, a propósito da distribuição geográfica, acrescenta: «Estes fenômenos abalam a crença em que estávamos de que o aptérix da Nova Zelândia e o tetras urogallus L. da Inglaterra tenham sido criações distintas feitas numa ilha e só para ela. É útil, com efeito, lembrar sempre que o zoólogo atribui o nome de criação ao processo sobre o qual nada se conhece». Explana esta idéia acrescentando que todas as vezes que um «zoólogo cita exemplos, como o precedente, para provar uma criação distinta numa ilha e para ela, quer dizer apenas que não sabe como o tetras urogallus L. se encontra exclusivamente neste lugar, e que esta maneira de exprimir a sua ignorância implica, ao mesmo tempo, a crença numa grande causa criadora primitiva, à qual a ave, assim como as ilhas, devem a sua origem». Se [] relacionarmos as frases pronunciadas no seu discurso umas com as outras, parece que em 1858 o eminente naturalista não estava convencido que o aptérix e o tetras urogallus L. tenham aparecido pela primeira vez nas suas respectivas regiões, sem que se possa explicar como e porquê.

vale a pena ver o original:
Professor Owen, in 1849 ("Nature of Limbs", page 86), wrote as follows: "The archetypal idea was manifested in the flesh under diverse such modifications, upon this planet, long prior to the existence of those animal species that actually exemplify it. To what natural laws or secondary causes the orderly succession and progression of such organic phenomena may have been committed, we, as yet, are ignorant." In his
address to the British Association, in 1858, he speaks (page li) of "the axiom of the continuous operation of creative power, or of the ordained becoming of living things." Further on (page xc), after referring to geographical distribution, he adds, "These phenomena shake our confidence in the conclusion that the Apteryx of New Zealand and the Red Grouse of England were distinct creations in and for those islands respectively. Always, also, it may be well to bear in mind that by the word 'creation' the zoologist means 'a process he knows not what.'" He amplifies this idea by adding that when such cases as that of the Red Grouse are "enumerated by the zoologist as evidence of distinct creation of the bird in and for such islands, he chiefly expresses that he knows not how the Red Grouse came to be there, and there exclusively; signifying also, by this mode of expressing such ignorance, his belief that both the bird and the islands owed their origin to a great first Creative Cause." If we interpret these sentences given in the same address, one by the other, it appears that this eminent philosopher felt in 1858 his confidence shaken that the Apteryx and the Red Grouse first appeared in their respective homes "he knew not how," or by some process "he knew not what."

ou ainda, joaquim dá mesquita paul:
Entrevejo num futuro afastado caminhos abertos a pesquisas muito mais importantes ainda. A psicologia será solidamente estabelecida sobre a base tão bem definida já por M. Herbert Spencer, isto é, sobre a aquisição necessariamente gradual de todas as faculdades e de todas as aptidões mentais, o que lançará uma viva luz sobre a origem do homem e sua história. Certos autores eminentes parecem plenamente satisfeitos com a hipótese de cada espécie ter sido criada de uma maneira independente. A meu ver, parece-me que o que nós sabemos das leis impostas à matéria pelo Criador concorda melhor com a hipótese de que a produção e a extinção dos habitantes passados e presentes do Globo são o resultado de causas secundárias, tais como as que determinam o nascimento e a morte do indivíduo. Quando considero todos os seres, não como criações especiais, mas como os descendentes em linha recta de alguns seres que viveram muito tempo antes que as primeiras camadas do sistema cambriano tivessem sido depositadas, parecem-me enobrecidos. Julgando assim pelo passado, podemos concluir com exactidão que nenhuma das espécies actualmente vivas transmitirá a sua semelhança intacta a uma época futura muito afastada, e que só um pequeno número delas terá descendentes nas idades por vir, Porque o modo de agrupamento de todos os seres organizados nos prova que, em cada género, o maior número de espécies, e que todas as espécies em muitos géneros, não deixaram descendente algum, mas estão totalmente extintas. Podemos mesmo lançar ao futuro um volver de olhos profético e predizer que são as espécies mais comuns e as mais espalhadas, pertencendo aos grupos mais consideráveis de cada classe, que prevalecerão ulteriormente e que procriarão espécies novas e preponderantes.
Como todas as formas actuais da vida descendem em linha recta das que viviam muito tempo antes da época cambriana, podemos estar certos de que a sucessão regular das gerações jamais foi interrompida e que nenhum cataclismo subverteu o mundo por completo. Podemos, pois, contar, com alguma confiança, sobre um futuro de incalculável comprimento. Ora, como a selecção natural actua apenas para o bem de cada indivíduo, todas as qualidades corporais e intelectuais devem tender a progredir para a perfeição.

eduardo nunes fonseca:
Entrevejo, num futuro remoto, caminhos abertos a pesquisas muito mais importantes ainda. A psicologia será solidamente estabelecida sobre a base tão bem definida [] por Mr. Herbert Spencer, isto é, sobre a aquisição necessariamente progressiva de todas as faculdades e de todas as aptidões mentais, o que lançará uma nova luz sobre a origem do homem e sua história.
Certos autores abalizados parecem plenamente satisfeitos com a possibilidade de cada espécie ter sido criada de uma maneira independente. A meu ver, parece-me que o que nós sabemos das leis impostas à matéria pelo Criador concorda melhor com a hipótese de que a produção e a extinção dos habitantes passados e presentes do globo sejam o resultado de causas secundárias, tais como as que determinam o nascimento e a morte do indivíduo. Quando considero todos os seres, não como criações especiais, mas como os descendentes em linha reta de alguns seres que viveram muito tempo antes que as primeiras camadas do sistema cambiano [sic] tivessem sido depositadas, parecem-me enobrecidos. Analisando assim pelo passado, podemos concluir com certeza que nenhuma das espécies atualmente vivas transmitirá a sua semelhança intacta a uma época futura muito afastada, e que só um pequeno número delas terá descendentes nas idades por vir, porque o modo de agrupamento de todos os seres organizados nos prova que, em cada gênero, o maior número de espécies, e que todas as espécies em muitos gêneros, não deixaram nenhum descendente, porém, estão totalmente extintas. Podemos mesmo lançar no futuro um olhar profético e dizer que são as espécies mais comuns e as mais disseminadas, pertencendo aos grupos mais consideráveis de cada classe, que prevalecerão posteriormente e que procriarão espécies novas e predominantes.
Como todas as formas atuais da vida descendem em linha reta das que viviam muito tempo antes da época cambriana, podemos estar certos de que a sucessão regular das gerações jamais foi interrompida e que nenhum cataclismo subverteu totalmente o mundo. Podemos, pois, contar, com alguma confiança, sobre um futuro de incalculável comprimento. Ora, como a seleção natural atua apenas para o bem de cada indivíduo, todas as qualidades corporais e intelectuais devem tender a progredir para a perfeição.

original:
In the future I see open fields for far more important researches. Psychology will be securely based on the foundation already well laid by Mr. Herbert Spencer, that of the necessary acquirement of each mental power and capacity by gradation. Much light will be thrown on the origin of man and his history.
Authors of the highest eminence seem to be fully satisfied with the view that each species has been independently created. To my mind it accords better with what we know of the laws impressed on matter by the Creator, that the production and extinction of the past and present inhabitants of the world should have been due to secondary causes, like those determining the birth and death of the individual. When I view all beings not as special creations, but as the lineal descendants of some few beings which lived long before the first bed of the Cambrian system was deposited, they seem to me to become ennobled. Judging from the past, we may safely infer that not one living species will transmit its unaltered likeness to a distinct futurity. And of the species now living very few will transmit progeny of any kind to a far distant futurity; for the manner in which all organic beings are grouped, shows that the greater number of species in each genus, and all the species in many genera, have left no descendants, but have become utterly extinct. We can so far take a prophetic glance into futurity as to foretell that it will be the common and widely spread species, belonging to the larger and dominant groups within each class, which will ultimately prevail and procreate new and dominant species. As all the living forms of life are the lineal descendants of those which lived long before the Cambrian epoch, we may feel certain that the ordinary succession by generation has never once been broken, and that no cataclysm has desolated the whole world. Hence, we may look with some confidence to a secure future of great length. And as natural selection works solely by and for the good of each being, all corporeal and mental endowments will tend to progress towards perfection.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



29 de abr de 2009

maquiavel e a última flor do lácio

.
assim, maquiavel chega ao brasil por volta de 1940, com o príncipe e a famosa carta a vettori na tradução de lívio xavier. [vide atualização] se a data parece tardia, também é surpreendente o adiantado dos anos da primeira publicação de maquiavel em portugal. foi somente em 1935 que apareceu a primeira tradução portuguesa do florentino: justamente o príncipe, posto em vernáculo por francisco morais e publicado pela editora atlântida.

num contraste com a edição brasileira, e que achei muito interessante, a primeira tradução maquiavelina lusitana traz como prefácio um artigo de mussolini* e o tradutor era destacado defensor do regime de salazar. justiça lhe seja feita: afirmam os comentadores que a integridade intelectual de francisco morais foi mais do que suficiente para garantir que o viés do fascismo não interferisse no trabalho de tradução.

* no brasil, até onde sei, a única edição que reproduz esse artigo (em posfácio) é a da editora rio (1979), com tradução em nome de aurora pereira de carvalho.

assim, maquiavel leva uns 420 anos para aportar em solo brasileiro e em solo lusitano: entre 1933 e 1935. em ambos os casos, conhecemo-lo inicialmente em o príncipe. do lado de lá do atlântico, sob a égide salazarista; do lado de cá, em lavra de eminente figura de oposição à ditadura varguista. em ambos os casos, traduções respeitáveis e respeitadas. a chamada "tradução fascista" jamais conheceu reedição, sendo raridade bibliográfica, ao passo que a fortuna histórica da tradução de lívio xavier ainda tem longa vida pela frente.

atualização em 12/02/2013: este post perdeu boa parte de sua validade, na medida em que a primeira edição dessa tradução de lívio xavier saiu em 1933 pela editora unitas, passando a ser publicada pela athena editora a partir de c.1938. ademais, também em 1933 sai a tradução d'o príncipe feita por elias davidovitch para a ed. calvino. mantenho o post pelas outras informações, que me parecem interessantes.

maquiavel, lívio xavier

sobre a abundância de edições de o príncipe de maquiavel, veja aqui o que foi localizado agora:
- 58 edições diferentes
- 33 traduções diferentes (em princípio), sem contar a de carlos eduardo soveral, por ser portuguesa
- 6 edições cujo tradutor não descobri

a tradução mais reproduzida é a de lívio xavier, em 11 editoras ou selos editoriais diferentes, em inúmeras e sucessivas reedições: abril cultural, agir, atena, ediouro, edipro, escala, fundação para a leitura do cego, nova cultural (até 1999), pocket ouro, prestígio e tecnoprint.

agir, ediouro, pocket ouro, prestígio e tecnoprint fazem parte do mesmo grupo, a ediouro. a atena fechou. a abril cultural fechou. a nova cultural trocou a tradução de lívio xavier por uma de olívia bauduh. (sobre olívias bauduhs e trocas na nova cultural, já vimos o caso dos pensamentos de pascal - talvez seja algo na mesma linha.) a escala até 2008 publicava a tradução de o príncipe em nome de ciro mioranza. parece que em 2009 resolveu adotar a de lívio xavier.

resumindo: atualmente, a tradução de lívio xavier circula pela ediouro, pela edipro, pela escala e em braille. ainda é a mais difundida e certamente serve de base ou de consulta para outras traduções.

é também a obra que introduziu maquiavel pela primeira vez no brasil. traz em apêndice a famosa carta de maquiavel a vettori, e vem com prefácio e notas do tradutor. ignoro o ano em que foi lançada pela atena editora. sei que a segunda edição é de 1944. tenho a terceira edição, de 1948. então, aplicando ao reverso esse intervalo de 4 anos, vou considerar 1940 como data hipotética da inaugural arribada maquiavelina in terra brasilis.*

* agradeceria muito se alguém soubesse me informar a data exata dessa primeira edição.

é um contexto bem interessante, em plena ditadura estadonovista, com uma razoável influência ideológica do fascismo, época da segunda guerra mundial. lívio barreto xavier, nascido em 1900 no ceará, formado em direito no rio de janeiro, teve intensa militância política desde 1925, data em que ingressou no partido comunista brasileiro. em 1929 foi expulso do partido, por divergências de fundo com a linha dominante de perfil nacionalista, sob astrojildo pereira. em 1931 mudou-se para são paulo, criando com mário pedrosa, aristides lobo, benjamin péret, a primeira organização trotskista brasileira. sob a forte repressão da ditadura vargas e o peso das divergências internas do trotskismo brasileiro, acabou se afastando da política militante em 1935, dedicando-se à tradução, à crítica literária e ao jornalismo cultural. morreu em 1988.

lívio xavier traduziu muito. seu nome faz parte do panteão dos tradutores que colocaram as obras do pensamento universal ao alcance dos brasileiros. tinha escrita fluente, elegante e mordaz. deixou sua marca entre a intelectualidade brasileira. seu texto esboço de uma análise da situação econômica e social do brasil (1930), em parceria com mário pedrosa, é tido como a primeira análise marxista, séria e consistente, sobre o país. autor também de nosso patrimônio cultural, tempestade sobre a ásia: a luta pela manchúria (com o pseudônimo de l. mantsô), infância na granja, o elmo de mambrino (que lhe valeu o prêmio jabuti de 1976, na categoria de estudos literários). como poeta bissexto, deixou uma coletânea de dez poemas de lívio xavier ilustrados por noêmia mourão. seu acervo se encontra no cedem, centro de documentação e memória, da unesp.

entre suas traduções incluem-se:

benjamin farrington, a ciência grega, e o que significa para nós (com joão cunha andrade)
edgar a. poe, o poço e o pêndulo
gandhi, memórias de gandhi
hegel, enciclopédia das ciências filosóficas (3 vol.) - aqui também trata-se da primeira tradução de uma obra integral de hegel no brasil (1936)
kropotkin, em torno de uma vida - memórias de um revolucionário (com berenice xavier)
maquiavel, carta a vettori
maquiavel, escritos políticos
maquiavel, o príncipe
rené wellek, história da crítica moderna
roger gal, história da educação
rosa luxemburgo, reforma ou revolução
rosa luxemburgo, reforma, revisionismo e oportunismo
spinoza, ética
trotsky, minha vida
trotsky, terrorismo e comunismo

imagem: http://cronologia.leonardo.it

atualização em 12/2/2013:  o príncipe em tradução de lívio xavier saiu em 1933 pela editora unitas, passando a ser publicada pela athena a partir de c.1938.


atualização em 24/5/13: agradeço a dainis karepovs pela imagem de capa.

28 de abr de 2009

nova lei rouanet

a consulta pública sobre o projeto de reformulação da lei rouanet está terminando. faltam apenas nove dias. dê seus palpites: http://blogs.cultura.gov.br/blogdarouanet/

e está rolando uma petição para o congresso avaliar o projeto com carinho: http://www.petitiononline.com/mod_perl/petition-sign.cgi?rouanet

quantos!


é impressionante como volta e meia a gente tropeça num príncipe, num contrato social, num elogio da loucura, numa república. se quantidade de edições diferentes significa avanço de qualidade, devemos ser uns especialistas na exegese maquiavelina!

maquiavel, o príncipe:

ab editora, oliveira leite gonçalves
abril cultural, lívio xavier
agir, lívio xavier
atena, lívio xavier
bertrand brasil, roberto grassi
bibliex, edson bini
calvino filho, elias davidovitch
cedic, não consegui saber
centauro, brasil bandecchi
círculo do livro, antonio d'elia
civilização brasileira, roberto grassi
clio, henrique amat rêgo monteiro
companhia das letras, maurício santana dias
cultrix, antonio d'elia
difel, roberto grassi
dpl, cândida de sampaio bastos
ed. unb, sérgio bath
edijur, não consegui saber
ediouro, lívio xavier
edipro, lívio xavier
elsevier, mônica bana (pelo espanhol)
escala, ciro mioranza
escala, lívio xavier
fundação para a leitura do cego no brasil, lívio xavier
fundação para a leitura do cego no brasil, outra edição, não sei qual
garnier, ana carolina moreira
gb, não consegui saber
germape, gilson césar cardoso de sousa
grupo folha, coleção "livros que mudaram o mundo", lívio xavier
hedra, josé antonio martins [bilíngue]
hemus, edson bini
hemus, torrieri guimarães
ícone, brasil bandecchi e mirtes de matteo
jardim dos livros, ana paula pessoa
juruá, nélia silka
leia, oberdan masucci
letras e artes, miécio tati
leud, amilcare carletti
lpm [o tradutor solicitou que seu nome fosse retirado deste levantamento]
madras, afonso teixeira filho
martin claret, pietro nassetti
martin claret, leda beck
martins fontes, maria júlia goldwasser
nova cultural, lívio xavier
nova cultural, olívia bauduh
nova fronteira, lívio xavier
otto pierre, não consta
parma, brasil bandecchi
paz e terra, maria lúcia cumo
planeta de agostini, carlos e. soveral
prestígio, lívio xavier
revista dos tribunais, josé cretella jr. e agnes cretella
rideel, torrieri guimarães
rigel, ferdinando schwartz
rio, aurora pereira de carvalho
russell, ricardo rodrigues gama
senado federal, mário e celestino da silva
suprema cultura, não consegui saber (como organizador valter roberto augusto)
tecnoprint, lívio xavier
três, lívio xavier
universo dos livros, não consegui saber
vecchi, mário e celestino silva
vozes, ivan hingo weber

afora o caso da planeta de agostini (a tradução de carlos eduardo soveral foi publicada em 1955 pela guimarães, de portugal), os demais parecem ser fauna local.

achei um certo exagero: entre essas 58 [59; 60; 61]* edições, há umas 38 traduções diferentes, algumas não muito recomendáveis, a saber, a assinada por "pietro nassetti" e a assinada por "olívia bauduh". mas, tirando isso, podia até ser simpático acompanhar esse périplo tradutório do príncipe em terra brasilis.

*atualizado em 31/08/2010; atualizado em 02/03/2011; atualizado em 28/11/2012

imagens: www.ga.wikipedia.org; http://www.playainnovations.com/

27 de abr de 2009

follow-up

periodicamente procuro encaminhar as questões que ficaram pendentes aqui no nãogosto.

assim, no post sobre o caso da landmark se candidatando ao prêmio de originalidade no plagiato nacional, comentei que não tivera ocasião de ver os outros títulos com tradução em nome do sr. fábio cyrino.

tentei ler um deles, o estranho caso do doutor jekyll e do senhor hyde, de robert louis stevenson (landmark, 2008) e, só por desencargo de consciência, consultei várias outras edições. creio que nós leitores podemos respirar aliviados.

seguem abaixo alguns exemplos do original e do texto publicado pela landmark.

well, sir, the two ran into one another naturally enough at the corner; and then came the horrible part of the thing: for the man trampled calmly over the child's body and left her screaming on the ground. it sounds nothing to hear, but it was hellish to see.
bem, meu caro, os dois se encontraram, um diante do outro, de modo absolutamente natural, próximo à esquina. e, agora, vem a parte horrível da história, pois o homem se atirou, calmamente, sobre o corpo da criança e lançou-a gritando ao chão. não havia nada para ser ouvido, mas era terrível de se olhar.

if you choose to make capital out of this accident, said he, i am naturally helpless. no gentleman but wishes to avoid a scene, says he. name your figure.
se desejarem aplicar a pena capital a este incidente, disse ele, naturalmente não terei escapatória. não há ninguém que desejaria evitar tal cena, afirmou. digam os seus nomes.

we screwed him up to a hundred pounds
nós o obrigamos a pagar mil libras

another man's cheque for close upon a hundred pounds
um cheque de, aproximadamente, mil libras de outro homem

the person that drew the cheque is the very pink of the proprieties, celebrated too, and (what makes it worse) one of your fellows who do what they call good.
a pessoa que sacou o cheque é uma pessoa de boa reputação, famosa, também, e (o que torna pior) um dos seus companheiros que acreditaram que ele tivesse agido bem.

i feel very strongly about putting questions; it partakes too much of the style of the day of judgement.
sei muito bem como colocar algumas questões; partilho, perfeitamente, do estilo do dia do juízo.

a face which had but to show itself to raise up, in the mind of the unimpressionable enfield, a spirit of enduring hatred.
rosto que nada tinha para revelar, na mente de uma pessoa impressionável como enfield, espírito de um ódio permanente.

decididamente não é plágio.

imagem: emoticon msn, bigeyes

26 de abr de 2009

o plágio bem explicadinho


essa eu vi com um mês de atraso, mas que legal: a folha online ensinando ao povo que plágio é feio.

"Veja diferença entre plágio, paráfrase e paródia; leia trecho da nova Gramática Houaiss

Uma das mais conhecidas maneiras de reelaborar um texto é o plágio, caracterizado pela apropriação ou imitação ilícita de um texto alheio. Outras formas de reescrever um texto, como a paráfrase e a paródia, não são consideradas ilícitas.
A nova Gramática Houaiss da Língua Portuguesa (Publifolha, 2009) explica a diferença entre o plágio, a paráfrase, a paródia e outras formas conhecidas de reelaboração de texto.
Leia abaixo breve trecho do livro que define as formas mais conhecidas de reelaboração de texto.
4.5.6.4.2 Reelaboração - A reelaboração consiste em produzir um texto (texto meta) derivado de outro (texto fonte). A relação entre os dois é geralmente de todo e todo. Entre os modos de reelaborar um texto, cinco são bem conhecidos, como segue.

4.5.6.4.2.1 Paráfrase - A paráfrase consiste em refazer um texto fonte em função de seu conteúdo. É uma categoria que abrange resumos, condensações, atas, adaptações relatórios.
4.5.6.4.2.2 Tradução - Tradução é uma variedade de reescrita de um texto, em que o texto meta é reelaborado em uma língua diferente daquela em que foi produzido o texto fonte. Tradução e paráfrase mesclam-se no gênero 'tradução adaptada', comum quando se trata de traduzir obras literárias muito extensas para o público infantil ou infanto-juvenil.
4.5.6.4.2.3 Paródia - A paródia é a recriação de viés crítico, com intenção cômica ou satírica. Na paródia, o texto fonte não é apenas o ponto de partida. Ele permanece entrevisto no espaço do texto recriado, sem o que se perde o efeito de sentido da paródia.
4.5.6.4.2.4 Plágio - O plágio consiste na apropriação ou imitação, essencialmente ilícita, de texto alheio. Pode ser parcial ou total, distinguindo-se da paráfrase e da paródia por ocultar seu processo de criação. A facilidade, criada pela internet, do acesso a textos alheios aumentou consideravelmente a prática do plágio nos meios acadêmicos.
4.5.6.4.2.5 Retificação - A retificação consiste no ato discursivo pelo qual o enunciador corrige ou modifica uma palavra, uma construção, uma formulação com o propósito de tornar a expressão mais precisa ou mais adequada. O alvo da retificação é normalmente um fragmento de texto, e pode ser extraído de um discurso alheio ou do discurso em processo do próprio enunciador."

isso mesmo, dona folha, não deixe o povo cair de bobo na vigarice dos ilícitos!

imagem: www.migas-bdc.blogger.com.br

que livro você seria?



teste bonitinho, twittada de alessandro martins.
pra mim deu memórias póstumas de brás cubas!

imagens: emoticons msn thumb up e jester

a galeria de pietro nassetti



25 de abr de 2009

graças e desgraças

já acho uma graça que thrawn janet apareça inicialmente no brasil como janet do pescoço torcido.
mas uma segunda vez - aí já é uma desgraça!

robert louis stevenson, janet do pescoço torcido:
1. e. jacy monteiro em 1968, para as edições paulinas
2. pietro nassetti em 2004, para a martin claret

e. jacy monteiro:
bem, quando se soube na aldeia que janet m'clour estava empregada como criada na casa paroquial, ficaram todos furiosos, seja contra ela, seja contra o pastor. algumas mulheres nada acharam de melhor que ir-lhe diante da porta e acusá-la de tudo quanto se sabia a respeito dela, desde o filho que tivera do soldado até as duas vacas de john tamson. ela não era muito conversadora; geralmente deixavam-na seguir o próprio caminho, enquanto ela os deixava ir pelo deles, sem dizer nem bom-dia nem boa-tarde; mas quando lhe dava na telha, tinha língua de fazer ensurdecer um moleiro. pulou para fora, e não houve velho mexerico em balweary que não viesse à luz do dia, naquela ocasião, irritando a todos; ninguém podia dizer uma palavra que ela não rebatesse duas, até que, ao fim, as comadres a agarraram, tiraram-lhe as roupas do corpo e a arrastaram pela aldeia, até às águas do dule, para verem se era verdadeiramente bruxa e se flutuava ou ia ao fundo. a velha berrou tanto que se podia ouvi-la até no maciço cadente,* mas lutava por dez; muitas comadres trouxeram, no dia seguinte, os sinais das unhas dela, e conservaram-nos vários dias. felizmente, mesmo no ponto mais alto da luta eis que chegou, para sua sorte, o novo pastor. (pp. 215-16)

* candente: por gralha tipográfica comeu-se um "n". a gralha é fielmente transcrita por nassetti.
pietro nassetti: 
bem, quando se soube na aldeia que janet m'clour estava empregada como criada na casa paroquial, ficaram todos furiosos, tanto contra ela, tanto contra o pastor. algumas mulheres nada acharam de melhor que ir-lhe diante da porta e acusá-la de tudo quanto se sabia a respeito dela, desde o filho que tivera do soldado até as duas vacas de john tamson. ela era de poucas palavras; geralmente deixavam-na seguir [] caminho, enquanto ela os deixava ir pelo deles, sem dizer nem bom-dia nem boa-tarde; mas quando lhe dava na telha, tinha língua de fazer ensurdecer um moleiro. pois naquele dia pulou para fora, e não houve velho mexerico em balweary que não viesse à luz do dia, naquela ocasião, irritando a todos; ninguém podia dizer uma palavra que ela não devolvesse duas, até que, no fim, as mulheres a agarraram, tiraram-lhe as roupas do corpo e a arrastaram pela aldeia, até às águas do dule, para confirmarem se era verdadeiramente bruxa: se flutuava ou ia ao fundo. a velha gritou tanto que se podia ouvi-la até no maciço cadente, mas lutava por dez; muitas mulheres mostraram, no dia seguinte, os sinais das unhas dela, e conservaram-nos por vários dias. felizmente, no ponto mais alto da luta, eis que chegou, para sua sorte, o novo pastor. (pp. 107-8).

e. jacy monteiro:
dirigiu-se então à janela, e lá ficou a contemplar as águas do dule. as árvores estavam muito densas e as águas corriam profundas e escuras sob a casa paroquial; era aí que janet lavava as roupas com o vestido arregaçado. estava de costas para o pastor, que apenas percebia o que estava contemplando. após certo tempo ela se voltou e mostrou o rosto; o senhor soulis sentiu o mesmo arrepio frio que sentira duas vezes naquele dia, vindo-lhe à mente o que o povo dizia; janet estava morta há muito tempo e aquele era um espírito envolvido nas carnes frias dela. encolheu-se um pouco e observou-a atentamente. estava batendo as roupas e cantarolava de si para si, mas (valha-me deus!) tinha um rosto espantoso. às vezes cantava fortemente; não havia, contudo, quem conseguisse distinguir as palavras da cantiga. outras vezes olhava para baixo obliquamente, embora nada houvesse para ver. um horror atravessou-lhe as carnes até os ossos; era aviso do céu. (pp. 221-22)

pietro nassetti: 
foi, então à janela, e lá ficou a contemplar as águas do dule. as árvores estavam muito densas e as águas corriam profundas e escuras sob a casa paroquial; era aí que janet lavava as roupas com o vestido arregaçado. estava de costas para o pastor, que apenas percebia o que estava contemplando. após certo tempo, ela se voltou e mostrou o rosto; o rev. soulis sentiu o mesmo arrepio frio que sentira duas vezes naquele dia, vindo-lhe à mente o que o povo comentava: janet estava morta há muito tempo e aquele era um espírito envolvido nas carnes frias dela. encolheu-se um pouco e observou-a atentamente. estava batendo as roupas e cantarolava de si para si, mas - santo deus! - tinha um rosto espantoso. às vezes cantava fortemente; não havia, contudo, quem conseguisse distinguir as palavras da cantiga. outras vezes olhava para baixo obliquamente, embora nada houvesse para ver. um horror atravessou-lhe as carnes até os ossos; era aviso do céu. (p. 111)

o volume das paulinas traz cinco contos: além de markheim e janet do pescoço torcido, contém a história que dá nome à coletânea, o doutor jekyll e o monstro, e ainda will do moinho e olallá. há uma introdução bem boazinha de eliseu sgarbossa, do qual não tenho outras referências. além de apresentar um painel da vida e obra de stevenson, a introdução comenta cada um dos cinco contos, aliás estendendo-se razoavelmente sobre olallá.



o volume da martin claret, por sua vez, traz o médico e o monstro, markheim e janet do pescoço torcido. então é muito engraçado ver a introdução de eliseu sgarbossa, devidamente creditada (mas duvido que autorizada), à guisa de posfácio na edição claretiana, conservando as referências a o doutor jekyll e o monstro, embora a edição claretiana use o título mais conhecido o médico e o monstro, e mantendo os comentários sobre will do moinho e olallá. fica realmente bizarro!



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


24 de abr de 2009

mais um da galeria claretiana


apresento abaixo a clareto-nassettada em cima do conto markheim, de stevenson. ao que tudo indica, a fonte de aspiração ou, melhor, de sucção foi o trabalho feito por e. jacy monteiro, publicado em 1968 pelas edições paulinas (coleção "fio de erva", volume 5).

1. jacy monteiro:
tinha o tempo grande quantidade de vozes no negócio, algumas majestosas e lentas conforme lhes convinha à venerável idade; outras gárrulas e pressurosas. todas marcavam os segundos em coro complicado de tique-taques. de repente os passos de um menino que corria pesadamente sobre a calçada cobriram aqueles pequenos sons e trouxeram markheim de sobressalto à consciência do lugar em que se achava. olhou em roda espantado. a candeia estava colocada sobre o banco e a chama oscilava solenemente à corrente de ar; e com aquele insignificante movimento a sala inteira enchia-se de muda agitação fazendo-a ondear como o mar. as sombras longas anuíam; as largas manchas de escuridão dilatavam-se e restringiam-se como a respiração, os rostos dos retratos e os ídolos de porcelana mudavam e ondeavam como imagens sobre a água. a porta interior estava meio aberta e mostrava-se apenas naquele exército de sombras por longa estria de luz como dedo acusador. (p. 186)

2. pietro nassetti:
tinha o tempo grande quantidade de vozes na loja, algumas majestosas e lentas conforme lhes convinha à venerável idade; outras, tagarelas e impacientes. todas marcavam os segundos em coro complicado de tique-taques. repentinamente, os passos de um menino que corria pesadamente sobre a calçada cobriram aqueles pequenos sons e trouxeram markheim de sobressalto à consciência do lugar em que se achava. espantado, olhou em redor. a candeia estava colocada sobre o banco e a chama oscilava solenemente à corrente de ar; e com aquele insignificante movimento a sala inteira enchia-se de muda agitação, fazendo-a ondear como o mar. as sombras longas anuíam; as largas manchas de escuridão dilatavam-se e restringiam-se como a respiração, os rostos dos retratos e as estátuas de porcelana mudavam e ondeavam como imagens sobre a água. a porta interior estava meio aberta e mostrava-se apenas naquele exército de sombras por longa aresta de luz tal qual dedo acusador. (p. 92)

1. jacy monteiro:
mas já estava tão agitado por outros receios que, enquanto uma parte da mente ainda estava vigilante e aguda, a outra tremia no limiar da loucura. apoderava-se dele certa alucinação de maneira particular. o vizinho que, de rosto branco, escutava perto da janela, o passante que parava na calçada preso de dúvida terrível... podiam pelo menos suspeitar, mas não saber; através das paredes de tijolo e das janelas fechadas, somente os sons podiam penetrar. (p. 189)

2. pietro nassetti:
entretanto já estava tão agitado por outros receios que, enquanto uma parte da mente ainda estava vigilante e aguda, a outra tremia no limiar da loucura. certa alucinação tomara conta dele de maneira particular. o vizinho que, de rosto branco, escutava perto da janela, o passante que parava na calçada preso de dúvida terrível... podiam pelo menos suspeitar, mas não saber; através das paredes de tijolo e das janelas fechadas, somente os sons podiam penetrar. (p. 94)

1. jacy monteiro:
a luz débil e nublada do dia caía indistintamente sobre o soalho nu e sobre a escada, sobre a armadura brilhante ereta com a alabarda na mão sobre o primeiro patamar, e sobre os entalhes profundos e sobre os quadros emoldurados, pendentes dos painéis amarelos da tapeçaria. o barulho da chuva por toda a casa era tão forte que começou, aos ouvidos de markheim, a subdividir-se em muitos sons diversos. rumor de pés e suspiros, passo cadenciado de regimentos que marchavam ao longe, tilintar de moedas sobre o balcão, e o chiar de portas fechadas furtivamente parecia misturarem-se com o bater das gotas sobre a cúpula e o escorrer da água nos canos. (pp. 193-94)

2. pietro nassetti:
a luz fraca e nublada do dia caía indistintamente sobre o soalho nu e sobre a escada, sobre a armadura brilhante ereta com a alabarda na mão sobre o primeiro patamar, e sobre os entalhes profundos e sobre os quadros emoldurados, pendentes dos painéis amarelos da tapeçaria. o barulho da chuva por toda a casa era tão forte que começou, aos ouvidos de markheim, a subdividir-se em muitos sons diversos. som de pés e suspiros, passo cadenciado de regimentos que marchavam ao longe, tilintar de moedas sobre o balcão, e o chiar de portas fechadas furtivamente parecia misturarem-se com o bater das gotas sobre a cúpula e o escorrer da água nos canos. (p. 96)

in: stevenson, o doutor jekyll e o monstro (paulinas, 1968; pp. 179-207); stevenson, o médico e o monstro (martin claret, 2004; pp. 89-104).


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



23 de abr de 2009

salve, jorge!



pois não é que 23 de abril, além do dia do livro e do direito do autor, é também o dia de são jorge, o santo guerreiro contra o dragão da maldade?


dia mundial do livro e do direito do autor








a todas as letras do mundo


e a todos os leitores do mundo








22 de abr de 2009

ooops

ih, pisei no calo de alguém. cinco visitas do mesmo ip de um servidor da usp a pequenos intervalos de tempo, com direito a deixar comentário com ameaçazinha anônima para mim e tudo? complicado.

per seculae seculorum


respondendo a consultas:
não, o plágio nunca prescreve.
é crime imprescritível.

imagem: http://cleacroche.blogspot.com

a cidade antiga


fustel de coulanges, la cité antique [1864] (hachette, 1920)
1. fernando de aguiar (clássica editora, 1945; martins fontes, 1987)
2. jonas camargo leite e eduardo nunes fonseca (hemus, 1975; tecnoprint, 1986; ediouro, 1992)

[livro 2, cap. vi]
Voici une institution des anciens dont il ne faut pas nous faire une idée d’après ce que nous voyons autour de nous. Les anciens ont fondé le droit de propriété sur des principes qui ne sont plus ceux des générations présentes ; il en est résulté que les lois par lesquelles ils l’ont garanti sont sensiblement différentes des nôtres.

1. eis uma instituição dos antigos da qual não podemos formar idéia através do direito de propriedade no mundo moderno. os antigos basearam o direito de propriedade em princípios diferentes dos das gerações presentes; e daqui resulta serem as leis que o garantiram sensivelmente diversas das nossas.

2. eis uma instituição dos antigos da qual não podemos formar idéia através do direito de propriedade no mundo moderno. os antigos alicerçaram o direito de propriedade em princípios diferentes dos das gerações presentes; e daqui resulta serem as leis que o garantiram bem diversas das nossas.

On sait qu’il y a des races qui ne sont jamais arrivées à établir chez elles la propriété privée ; d’autres n’y sont parvenues qu’à la longue et péniblement. Ce n’est pas, en effet, un facile problème, à l’origine des sociétés, de savoir si l’individu peut s’approprier le sol et établir un si fort lien entre son être et une part de terre qu’il puisse dire : Cette terre est mienne, cette terre est comme une partie de moi. Les Tartares conçoivent le droit de propriété quand il s’agit des troupeaux, et ne le comprennent plus quand il s’agit du sol. Chez les anciens Germains, suivant quelques auteurs, la terre n’appartenait à personne ; chaque année la tribu assignait à chacun de ses membres un lot à cultiver, et on changeait de lot l’année suivante. Le Germain était propriétaire de la moisson ; il ne l’était pas de la terre. Il en est encore de même dans une partie de la race sémitique et chez quelques peuples slaves.

1. sabe-se terem existido raças que nunca chegaram a instituir a propriedade privada entre si, e outras só demorada e penosamente a estabeleceram. efetivamente não é problema fácil, no começo das sociedades, saber-se se o indivíduo pode apropriar-se do solo e estabelecer tão forte vínculo entre a sua própria pessoa e uma porção de terra, a ponto de poder dizer: "esta terra é minha, esta terra é parcela de mim mesmo." os tártaros admitiam o direito de propriedade, no que dizia respeito aos rebanhos, e já não o concebiam ao tratar-se do solo. entre os antigos germanos, segundo alguns autores, a terra não pertencia a ninguém; em cada ano, a tribo indicava a cada um dos seus membros o lote para cultivar, e mudava no ano seguinte. o germano era proprietário da colheita, mas não o dono da terra. ainda acontece o mesmo em parte da raça semítica e entre alguns povos eslavos.

2. sabe-se terem existido povos que nunca chegaram a instituir a propriedade privada entre si, e outras [sic] só demorada e penosamente a estabeleceram. com efeito, não é problema simples, no início das sociedades, saber-se se o indivíduo pode apropriar-se do solo e estabelecer tão forte união entre a sua própria pessoa e uma parte da terra, a ponto de poder dizer: esta terra é minha, esta terra é parte de mim mesmo. os tártaros admitiam o direito de propriedade, quando se tratava de rebanhos e já não o concebiam ao tratar-se do solo. entre os antigos germanos, segundo alguns autores, a terra não era propriedade de ninguém; cada ano, a tribo indicava a cada um dos seus membros um lote para cultivo, lote que era trocado no ano seguinte. o germano era proprietário da colheita, mas não o dono da terra. o mesmo acontece em uma parte da raça semítica e entre alguns povos eslavos.

Au contraire, les populations de la Grèce et de l’Italie, dès l’antiquité la plus haute, ont toujours connu et pratiqué la propriété privée. Il n’est resté aucun souvenir historique d’une époque où la terre ait été commune ; et l’on ne voit non plus rien qui ressemble à ce partage annuel des champs qui est signalé chez les Germains. Il y a même un fait bien remarquable. Tandis que les races qui n’accordent pas à l’individu la propriété du sol lui accordent au moins celle des fruits deson travail, c’est-à-dire de sa récolte, c’était le contraire chez les Grecs. Dans quelques villes, les citoyens étaient astreints à mettre en commun leurs moissons, ou du moins la plus grande partie ; et devaient les consommer en commun ; l’individu n’était donc pas absolument maître du blé qu’il avait récolté ; mais en même temps, par une contradiction bien remarquable, il avait la propriété absolue du sol. La terre était à lui plus que la moisson. Il semble que chez les Grecs la conception du droit de propriété ait suivi une marche tout à fait opposée à celle qui paraît naturelle. Elle ne s’est pas appliquée à la moisson d’abord, et au sol ensuite. C’est l’ordre inverse qu’on a suivi.

1. ao contrário, as populações da grécia e as da itália, desde a mais remota antiguidade, sempre conheceram e praticaram a propriedade privada. nenhuma recordação histórica nos chegou, e de época alguma, que nos revele a terra ter estado em comum; e nada tampouco se encontra que se assemelhe à partilha anual dos campos, tal como esta se praticou entre os germanos. há mesmo um fato verdadeiramente digno de destaque. enquanto as raças que não concedem ao indivíduo a propriedade do solo lhe facultam, ao menos, a dos frutos do seu trabalho, isto é, a colheita, com os gregos sucede o contrário. em algumas cidades os cidadãos são obrigados a ter em comum as colheitas, ou, pelo menos, a maior parte delas, devendo gastá-las em sociedade; portanto, o indivíduo não nos aparece como absoluto senhor do trigo por ele colhido, mas mercê de notável contradição, já que tem propriedade absoluta do solo. a terra era mais dele do que a colheita. parece que a concepção de direito de propriedade tinha seguido, entre os gregos, caminho inteiramente oposto àquele que se afigura como o mais natural. não se aplicou primeiro à colheita e depois ao solo. seguiu-se a ordem inversa.

2. ao contrário, as populações da grécia e da itália, desde a mais longínqua antiguidade, sempre reconheceram e praticaram a propriedade privada. nenhuma lembrança histórica nos chegou, e de época alguma, que nos revele a terra ter estado em comum; e nada tampouco se encontra que se assemelhe à partilha anual dos campos, tal como se praticou entre os germanos. há mesmo um fato verdadeiramente digno de nomeada. enquanto as raças que não concedem ao indivíduo a propriedade do solo facultam-lhe, pelo menos, tal direito sobre os frutos do seu trabalho, isto é, da colheita, entre os gregos acontecia o contrário. em algumas cidades os cidadãos são obrigados a reunir em comunidade as colheitas ou, pelo menos, a maior parte delas e devendo gastá-las em sociedade; portanto, o indivíduo não nos aparece como senhor absoluto do trigo por ele colhido, mas, mercê de notável contradição, já tem a propriedade absoluta do solo. a terra para ele valia mais do que a colheita. parece ter a concepção de direito de propriedade seguido, entre os gregos, caminho inteiramente oposto àquele que se afigura como o mais natural. não se aplicou primeiro à colheita e depois ao solo. seguiu-se a ordem inversa.

Or, entre ces dieux et le sol, les hommes des anciens âges voyaient un rapport mystérieux. Prenons d’abord le foyer : cet autel est le symbole de la vie sédentaire ; son nom seul l’indique 1. Il doit être posé sur le sol ; une fois posé, on ne doit plus le changer de place. Le dieu de la famille veut avoir une demeure fixe ; matériellement, il est difficile de transporter la pierre sur laquelle il brille ; religieusement, cela est plus difficile encore et n’est permis à l’homme que si la dure nécessité le presse, si un ennemi le chasse ou si la terre ne peut pas le nourrir. Quand on pose le foyer, c’est avec la pensée et l’espérance qu’il restera toujours à cette même place. Le dieu s’installe là, non pas pour un jour, non pas même pour une vie d’homme, mais pour tout le temps que cette famille durera et qu’il restera quelqu’un pour entretenir sa flamme par le sacrifice. Ainsi le foyer prend possession du sol; cette part de terre, il la fait sienne ; elle est sa propriété.

1. encontraram os antigos misteriosa relação entre estes deuses e o solo. vejamos, primeiramente, o lar: este altar é o símbolo da vida sedentária; o seu próprio nome o indica. deve estar assente no solo; uma vez ali colocado nunca mais deve mudar de lugar. o deus da família quer ter morada fixa; materialmente, a pedra sobre a qual ele brilha, torna-se de difícil transporte; religiosamente, isso parece-lhe ainda mais difícil, só sendo permitido ao homem quando dura necessidade o obriga, o inimigo o expulsa ou a terra não pode alimentá-lo. ao assentar-se o lar, fazem-no com o pensamento e a esperança de que ficará sempre no mesmo lugar. o deus instala-se nele, não para um dia, nem mesmo só para a precária vida de um homem, mas para todos os tempos, enquanto esta família existir e dela restar alguém a conservar a sua chama em sacrifício. assim o lar toma posse do solo; apossa-se desta parte de terra que fica sendo, assim, sua propriedade.

2. divisaram os antigos misteriosa relação entre estes deuses e o solo. vejamos, primeiramente, o lar; este altar é o símbolo da vida sedentária; o seu próprio nome o indica. deve estar assente no solo; uma vez ali colocado nunca mais devem mudá-lo de lugar. o deus da família deseja ter morada fixa; materialmente, a pedra sobre a qual ele brilha, torna-se de difícil transporte; religiosamente, isso parece-lhe ainda mais difícil, só sendo permitido ao homem quando dura necessidade o aperta, o inimigo o expulsa, ou a terra não pode alimentá-lo. ao assentar-se o lar, fazem-no com o pensamento e a esperança de que permanecerá sempre no mesmo lugar. o deus ali se instala não para um dia, nem mesmo pelo espaço de uma vida humana, mas por todo o tempo que dure esta família e dela restar alguém que alimente a chama do sacrifício. assim o lar toma posse do solo; apossa-se dessa parte de terra que fica sendo, assim, sua propriedade.

Et la famille, qui par devoir et par religion reste toujours groupée autour de son autel, se fixe au sol comme l’autel lui-même. L’idée de domicile vient naturellement. La famille est attachée au foyer, le foyer l’est au sol ; une relation étroite s’établit donc entre le sol et la famille. Là doit être sa demeure permanente, qu’elle ne songera pas à quitter, à moins qu’une force supérieure ne l’y contraigne. Comme le foyer, elle occupera toujours cette place. Cette place lui appartient ; elle est sa propriété, propriété non d’un homme seulement, mais d’une famille dont les différents membres doivent venir l’un après l’autre naître et mourir là.

1. e a família, ficando, destarte, por dever e por religião, agrupada em redor do seu altar, fixa-se ao solo tanto como o próprio altar. a idéia de domicílio surge espontaneamente. a família está vinculada ao lar e este, por sua vez, encontra-se fortemente ligado ao solo; estreita conexão se estabeleceu, portanto, entre o solo e a família. aí deve ser a sua residência permanente, que nunca pensará deixar, a não ser quando alguma força superior a isso a constranja. como o lar, a família ocupará sempre este lugar. o lugar pertence-lhe: é sua propriedade, propriedade não de um só homem, mas de uma família, cujos diferentes membros devem vir, um após outros, nascer e morrer ali.

2. e a família, destarte, ficando, por dever e por religião, agrupada ao redor do seu altar, fixa-se ao solo tanto como o próprio altar. a idéia de domicílio surge naturalmente. a família está vinculada ao altar e este, por sua vez, encontra-se fortemente ligado ao solo; estreita relação se estabeleceu, portanto, entre o solo e a família. aí deve ser sua residência permanente, que jamais abandonará, a não ser quando alguma força superior a isso a constranja. como o lar, a família ocupará sempre esse lugar. o lugar pertence-lhe: é sua propriedade, propriedade não de um único homem, mas de uma família, cujos diferentes membros devem vir, um após outro, nascer e morrer ali.

Suivons les idées des anciens. Deux foyers représentent des divinités distinctes, qui ne s’unissent et qui ne se confondent jamais ; cela est si vrai que le mariage même entre deux familles n’établit pas d’alliance entre leurs dieux. Le foyer doit être isolé, c’est-à-dire séparé nettement de tout ce qui n’est pas lui [...] Cette enceinte tracée par la religion et protégée par elle est l’emblème le plus certain, la marque la plus irrécusable du droit de propriété.

1. sigamos o raciocínio dos antigos. dois lares representam divindades distintas que nunca se unem nem se confundem; isto é tão evidente que o próprio casamento realizado entre duas famílias não estabelece a união entre os seus deuses. o lar deve estar isolado, isto é, nitidamente separado de tudo quanto não lhe pertença [...] esta vedação, traçada pela religião e por ela protegida, afirma-se como o tributo mais verdadeiro, o sinal irrecusável do direito de propriedade.

2. sigamos o raciocínio dos antigos. dois lares representam duas divindades distintas que nunca se unem nem se confundem; isto é tão evidente que o próprio casamento realizado entre duas famílias não estabelece aliança entre os seus deuses. o lar deve ser isolado, isto é, visivelmente separado de tudo quanto não lhe pertença [...] este limite, traçado pela religião e por ela protegido, afirma-se como o tributo mais verdadeiro, o sinal irrecusável do direito de propriedade.

Il est résulté de ces vieilles règles religieuses que la vie en communauté n’a jamais pu s’établir chez les anciens. Le phalanstère n’y a jamais été connu. Pythagore même n’a pas réussi à établir des institutions auxquelles la religion intime des hommes résistait.

1. dessas velhas disposições religiosas resultou nunca poder estabelecer-se entre os antigos a vida em comunidade. o falanstério nunca foi conhecido entre estas populações. o próprio pitágoras não ousou estabelecer instituições às quais a religião íntima dos homens resistia.

2. dessas antigas disposições religiosas resultou nunca poder estabelecer-se a vida em comunidade, entre os antigos. o falanstério nunca foi conhecido. o próprio pitágoras não ousou estabelecer instituições às quais a religião íntima dos homens resistia.

La tente convient à l’Arabe, le chariot au Tartare, mais à une famille qui a un foyer domestique il faut une demeure qui dure. A la cabane de terre ou de bois a bientôt succédé la maison de pierre. On n’a pas bâti seulement pour une vie d’homme, mais pour la famille dont les générations devaient se succéder dans la même demeure.

1. ao árabe convém a tenda, ao tártaro o carro, mas para estas famílias, tendo um lar doméstico, é necessária a morada fixa. à cabana de terra, ou de madeira, sucedeu, dentro em pouco, a casa de pedra. esta casa não se construiu somente para a vida dum homem, mas para uma família cujas gerações deviam suceder-se na mesma habitação.

2. ao árabe convém a tenda, ao tártaro o carro, mas para estas famílias, tendo um lar doméstico, é necessária a residência fixa. à cabana de terra ou de madeira, seguiu-se, dentro em pouco, a casa de pedra. esta casa não se construiu apenas para a vida de um homem, mas para uma família cujas gerações deviam suceder-se na mesma habitação.

[livro 4, cap. i]
Jusqu’ici nous n’avons pas parlé des classes inférieures et nous n’avions pas à en parler. Car il s’agissait de décrire l’organisme primitif de la cité, et les classes inférieures ne comptaient absolument pour rien dans cet organisme. La cité s’était constituée comme si ces classes n’eussent pas existé. Nous pouvions donc attendre pour les étudier que nous fussions arrivés à l’époque des révolutions.

1. até aqui não falamos das classes inferiores, e nem mesmo havia ocasião para nos referirmos a estas. e isto porque a finalidade era traçar a estrutura primitiva da cidade, e as classes inferiores não tiveram importância absolutamente nenhuma nesta organização. a cidade achava-se constituída como se estas classes não existissem. podíamos reservar, portanto, seu estudo para quando chegássemos ao período das revoluções.

2. até aqui não falamos ainda das classes inferiores, e nem mesmo havia ocasião para nos referirmos a ela [sic], porque nossa finalidade era descrever a estrutura primitiva da cidade, e as classes inferiores não tiveram nenhuma importância nessa organização. a cidade constituíra-se como se estas classes não existissem. poderia reservar-se, pois, o seu estudo para quando atingíssemos esse período de revoluções.

Puis cette famille a des serviteurs, qui ne la quittent pas, qui sont attachés héréditairement à elle, et sur lesquels le pater ou patron exerce la triple autorité de maître, de magistrat et de prêtre. On les appelle de noms qui varient suivant les lieux ; celui de clients et celui de thètes sont les plus connus.

1. depois, esta família tem servos que não a abandonam, servos hereditariamente ligados à família e sobre os quais o pater ou patrono usa da sua tríplice autoridade de senhor, de magistrado e de sacerdote. davam-lhes nomes diferentes, segundo os lugares, embora os mais comumente conhecidos sejam os de clientes e tetas.

2. depois, essa família tem servos que não a abandonam, servos hereditariamente vinculados à família e sobre os quais o pater ou patrono exerce sua tríplice autoridade de mestre, de magistrado e de sacerdote. davam-lhes nomes diferentes, segundo as regiões, embora os mais comumente conhecidos sejam os de clientes e tetas.

La ville [...] est le centre de l’association, la résidence du roi et des prêtres, le lieu où se rend la justice ; mais les hommes n’y vivent pas. Pendant plusieurs générations encore, les hommes continuent à vivre hors de la ville, en familles isolées qui se partagent la campagne.

1. a urbe [...] centro da associação, residência do rei e dos sacerdotes, e lugar onde se administra a justiça, mas os homens continuam a viver do lado de fora da urbe, em famílias isoladas, que dividem entre si os campos.

2. a cidade [...] o centro da associação, a residência do rei e dos sacerdotes, e lugar onde se administra a justiça, mas onde os homens continuam a viver fora da cidade, em famílias isoladas, que dividem entre si os campos.

Cette classe, qui devint plus nombreuse à Rome que dans aucune autre cité, y était appelée la plèbe. Il faut voir l’origine et le caractère de cette classe pour comprendre le rôle qu’elle a joué dans l’histoire de la cité et de la famille chez les anciens.
Les plébéiens n’étaient pas les clients ; les historiens de l’antiquité ne confondent pas ces deux classes entre elles.

1. esta classe, mais numerosa em roma que em qualquer outra cidade, tinha aí o nome de plebe. precisamos examinar a origem e o caráter desta classe para melhor entender o papel, entre os antigos, desempenhado pela plebe na história da cidade e da família.
os plebeus não eram clientes; os historiadores da antiguidade nunca confundiram estas duas classes uma com a outra.

2. essa classe, mais numerosa em roma que em nenhuma outra cidade, tinha aí o nome de plebe. precisamos examinar a origem e o caráter dessa classe para melhor compreendermos o papel desempenhado pela plebe na história da cidade e da família entre os antigos.
os plebeus não eram clientes; os historiadores da antiguidade nunca confundiram estas duas classes uma com a outra.


a título ilustrativo, seguem-se os trechos correspondentes na tradução de frederico ozanam (edameris)*

Eis uma instituição dos antigos sobre a qual não devemos formar idéia pelo que vemos a nosso redor. Os antigos basearam o direito de propriedade sobre princípios que não são mais os das gerações presentes, e daqui resultou que as leis pelas quais o garantiram são sensivelmente diversas das nossas.

Sabemos que há raças que jamais chegaram a instituir entre si a propriedade privada; outras só a admitiram depois de muito tempo e a muito custo. Com efeito, não é um problema fácil, na origem das sociedades, saber se o indivíduo pode apropriar-se do solo, e estabelecer uma união tão forte entre si e uma parte da terra a ponto de poder dizer: Esta terra é minha, esta terra é como que parte de mim mesmo. Os tártaros admitem direitos de propriedade quando se trata de rebanhos, e não o compreendem quando se trata do solo. Entre os antigos germanos, de acordo com alguns autores, a terra não pertencia a ninguém; todos os anos a tribo designava a cada um de seus membros um lote para cultivar, lote que era trocado no ano seguinte. O germano era proprietário da colheita, e não da terra. O mesmo acontece ainda em uma parte da raça semítica, e entre alguns povos eslavos.

Pelo contrário, as populações da Grécia e da Itália, desde a mais remota antiguidade, sempre reconheceram e praticaram a propriedade privada. Não ficou nenhuma lembrança histórica de época em que a terra fosse comum e também nada se vê que se assemelhe a essa divisão anual dos campos, praticada entre os germanos. Há até um fato bastante notável. Enquanto as raças que não concediam ao indivíduo a propriedade do solo, concedem-lhe pelo menos tal direito sobre os frutos do trabalho, isto é, das colheitas, entre os gregos acontecia o contrário. Em algumas cidades os cidadãos eram obrigados a reunir em comum as colheitas, ou, pelo menos, a maior parte delas, e deviam consumi-las em comum; o indivíduo, portanto, não era absoluto senhor do trigo que havia colhido; mas ao mesmo tempo, por notável contradição, tinha absolutos direitos de propriedade sobre o solo. A terra para ele valia mais que a colheita. Parece que entre os gregos a concepção do direito de propriedade tenha seguido caminho absolutamente oposto ao que parece natural. Não se aplicou primeiro à colheita e depois ao solo. Seguiu-se a ordem inversa.

Ora, entre esses deuses e o solo, os homens das épocas mais antigas divisavam uma relação misteriosa. Tomemos, em primeiro lugar, o lar; esse altar é o símbolo da vida sedentária, como o nome bem o indica. Deve ser colocado sobre a terra, e, uma vez construído, não o devem mudar mais de lugar. O deus da família deseja possuir morada fixa; materialmente, é difícil transportar a terra sobre a qual ele brilha; religiosamente, isso é mais difícil ainda, e não é permitido ao homem senão quando é premido pela dura necessidade, expulso por um inimigo, ou se a terra não o puder sustentar por ser estéril. Quando se constrói o lar, é com o pensamento e a esperança de que continue sempre no mesmo lugar. O deus ali se instala, não por um dia, nem pelo espaço de uma vida humana, mas por todo o tempo em que dure essa família, e enquanto restar alguém que alimente a chama do sacrifício. Assim o lar toma posse da terra; essa parte da terra torna-se sua, é sua propriedade.

E a família, que por dever e por religião fica sempre agrupada ao redor desse altar, fixa-se ao solo como o próprio altar. A idéia de domicílio surge naturalmente. A família está ligada ao altar, o altar ao solo; estabelece-se estreita relação entre a terra e a família. Aí deve ter sua morada permanente, que jamais abandonará, a não ser quando obrigada por força superior. Como o lar, a família ocupará sempre esse lugar. Esse lugar lhe pertence, é sua propriedade; e não de um homem somente, mas de toda uma família, cujos diferentes membros devem, um após outro, nascer e morrer ali.

Sigamos o raciocínio dos antigos. Dois lares representam duas divindades distintas, que nunca se unem ou se confundem; isso é tão verdade, que o casamento entre duas famílias não estabelece aliança entre seus deuses. O lar deve ser isolado, isto é, separado claramente de tudo o que não lhe pertence [...] Essa linha divisória traçada pela religião, e por ela protegida é o emblema mais certo, a marca mais irrecusável do direito de propriedade.


O resultado dessas velhas regras religiosas é que entre os antigos jamais se estabeleceu uma vida de comunidade. O falanstério nunca foi conhecido. O próprio Pitágoras não conseguiu estabelecer instituições às quais a religião íntima dos homens resistia.

A tenda convém ao árabe, o carro ao tártaro, mas uma família que tem um altar doméstico precisa de uma casa que dure. À cabana de terra ou de madeira seguiu-se logo a casa de pedra. E esta não foi construída somente para a vida de um homem, mas para a família, cujas gerações deviam suceder-se na mesma morada.

Até aqui ainda não falamos das classes inferiores, nem tínhamos o que falar, porque se tratava de descrever o organismo primitivo da cidade, e as classes inferiores não tinham importância nenhuma em sua estrutura, A cidade constituíra-se como se essas classes não existissem. Podíamos, portanto, esperar para estudá-las quando chegássemos à época das revoluções.

Depois, essa família tem criados, que não a deixam, e que a ela estão ligados por hereditariedade, e sobre as quais o pater, ou patrono, exerce a tríplice autoridade de mestre, de magistrado e de sacerdote. Seus nomes variam de acordo com os lugares; os mais conhecidos são os de clientes e tetas.

A cidade [...] é o centro da associação, a residência do rei e dos sacerdotes, o lugar onde se administra justiça, e não a morada dos homens. Durante muitas gerações ainda os homens continuam a viver fora da cidade, em famílias isoladas, que dividem entre si os campos.

Essa classe, que se torna mais numerosa em Roma que em nenhuma outra cidade, chamava-se ali de plebe. É preciso que vejamos a origem e o caráter dessa classe, para compreendermos o papel que desempenhou na história da cidade e da família entre os antigos.
Os plebeus não eram clientes; os historiadores da antiguidade não confundem essas duas classes entre si

* existem outras traduções de a cidade antiga: edson bini (edipro, 1998), nélia pinheiro padilha (juruá, 2002), joão cretella jr. e agnes cretella (revista dos tribunais, 2003), aurélio barroso rebello e laura alves (pela própria ediouro, 2004), heloísa da graça burati (rideel, 2005), cf. http://www.bn.br/.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



imagens: http://stubenrock.blogspot.com/; héstia e deméter