14 de dez de 2009

regulamentos

só tenho elogios a fazer sobre os prêmios literários que a fundação biblioteca nacional atribui anualmente a várias categorias, entre elas a de tradução, com o prestigioso prêmio paulo rónai.

neste ano, o regulamento para a inscrição dos interessados lançou uma novidade: o concurso estava aberto apenas a pessoas físicas, e a inscrição só poderia ser feita diretamente pelo autor, tradutor ou designer, sem intermediação da editora que a houvesse publicado.
"2. Da inscrição: [...]
2.3. As obras deverão ser inscritas exclusivamente pelo autor, tradutor ou autor de projeto gráfico, de acordo com cada categoria. [...]
2.16 A inscrição no presente Concurso implica a aceitação, pelo candidato, das normas deste Edital."

havia a ressalva explícita:
"6. Das Disposições Gerais
6.1. A falta do cumprimento de qualquer exigência deste regulamento acarretará a automática eliminação da obra concorrente."

aparentemente as regras são claras. no entanto, não só foi aceita a inscrição, como foi selecionada entre os três finalistas uma obra de tradução cujo autor faleceu mais de vinte anos atrás. trata-se de o percevejo, de maiakóvski, traduzido por luís antonio martinez corrêa (1950-1987) e publicado pela editora 34.

não conheço a obra em questão, mas tenho a mais absoluta confiança de que é ótima, com cotejo e posfácio do grande mestre boris schnaiderman, e publicada por uma editora de alto nível como é a 34. tenho plena convicção de que mereceria um prêmio especial de homenagem póstuma em reconhecimento a este trabalho.

o que não entendo é por que, aparentemente, sua inscrição foi feita e aceita ao arrepio do regulamento à primeira vista tão claro e inequívoco.

tampouco entendo por que a comissão organizadora do concurso, perante um caso assim, não poderia criar ad hoc uma solução mais adequada, sem ferir a letra do regulamento do concurso. aparentemente, apenas a comissão julgadora, já a jusante do processo, é que teria consignado em seu parecer que se tratava de uma homenagem póstuma.

em meu humilde entender, a fbn perdeu uma excelente ocasião de prosseguir em seu trabalho de valorização do labor intelectual envolvido no ofício tradutório. que se multipliquem os prêmios! que se homenageem os póstumos! que se reconheça o valor de todos que merecem reconhecimento! mas que não se enquadre num certame, à força ou com rodeios, algo que é vetado por seu regulamento. vamos fazer as palavras valerem, e que a letra morta possa ser letra viva.

se a fbn não quiser reparar esta questão agora, por exemplo atribuindo extemporaneamente um prêmio especial a luís antonio martinez corrêa, parece-me indispensável que pelo menos se comprometa a aprimorar seus futuros regulamentos - contemplando, por exemplo, a especificação "ou seus sucessores legais" - e se empenhe em manter inabalada a credibilidade deste certame tão importante para a vida cultural do país.

Um comentário:

  1. Anônimo15.12.09

    Muito bem colocado, Denise. Apoiado.
    Zsuzsanna

    ResponderExcluir

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.