13 de dez de 2009

ivo barroso - itinerários VII



UM CASAMENTO ENCRUADO

Para encerrar definitivamente a história dos cadernos, tiro do fundo da gaveta um esmaecido 16x11 “De Luxe” Nº 15 – Pautado, adquirido na antiga Casa Cruz do Rio de Janeiro em 1948, cuja primeira página me faz sorrir ante a pretensiosa inscrição: Cahier de Voyage. Explico: meu pai achava que meu curso de Neo-latinas (na então chamada Faculdade de Filosofia) era incompatível com as esperanças que a cidade nutria em relação à sua descendência; donde ele, farmacêutico, querer um filho médico, advogado ou militar. Os militares estavam em alta (inclusive em termos salariais) e, para atender aos desígnios paternos, me inscrevi naquele ano nos vestibulares das Escolas Militar, Naval e da Aeronáutica. Uma oportuna (?) miopia salvou-me dos quartéis, dos conveses ou das asas fabianas – reprovando-me no exame médico das três. Até o novo ano letivo, lá estavam as sonhadas, as benditas férias no interior de Minas, onde meu pai continuava a manter sua farmácia apostolar, vocacional, beneficente. Parti, levando o caderninho.

Nele encontro, com data de Rio, 8 [1949]: "Em grandes preparativos para embarcar. Vence o prazo do livro de Blake e tenho de copiar aqui seus provérbios para terminar sua tradução em Minas”. Seguem-se, numa letrinha caprichosa, que fui perdendo ao longo do tempo, os 70 “Provérbios do Inferno”, parte capital de The Marriage of Heaven and Hell, de William Blake. Como cheguei a esse livro? Por essa época, havia descoberto Gide (Trozos escogidos, em espanhol) e comecei a ler tudo dele numa edição de luxo, feita na Suíça, e existente na Biblioteca Nacional. Lá pelas tantas, Gide fala em Blake como sendo a quarta estrela de uma constelação composta por Nietzsche, Dostoiévski e Browning, e cuja leitura o levou a traduzir Le Marriage du Ciel et de l´Enfer, em 1922. Fui atrás do original, que encontrei na Biblioteca do IPASE (excelente à época, tinha todos os livros da Modern Library) e levei de empréstimo para casa, reformando o pedido várias vezes, pois meti-me na cabeça que o devia traduzir. Comecei a tentar com um ou outro dos provérbios, sem avançar muito, mas, como ia de férias, o recurso foi copiá-los para acabar a tradução em Minas.


Eis minha primeira tentativa de traduzir um livro completo; já havia conseguido traduzir sonetos e até pequenos poemas, do espanhol e do francês, mas nunca um livro inteiro, tarefa que me parecia impossível. E foi, no caso de Blake, pois ficou apenas no caderno de viagem. De volta das férias, voltei também a Gide, encantei-me com o Retour de l´Enfant Prodigue, e igualmente cismei de traduzi-lo. Logo no início, a expressão “comme un donnateur au coin du tableau” me botou nocaute durante muito tempo, até que recorri a Otto Maria Carpeaux (li numa entrevista que ele respondia a todas as cartas, escrevi-lhe), que me esclareceu sobre os mecenas medievais que, por devoção, pediam aos pintores que os colocassem ajoelhados a um ângulo do quadro. Também este foi um projeto arrastado, produtor de rascunhos hieroglíficos, abandonado e retomado várias vezes, que só se realizou em 1984, ao ser editado pela Nova Fronteira.

O Casamento ficou por muito tempo no namoro. Em fases sucessivas, fui tocando os provérbios até traduzi-los todos. Mas não conseguia vencer a barreira das “visões memoráveis” e o projeto adormeceu na comodidade dos rascunhos. Em 1956, apareceu a tradução de Oswaldino Marques, e achei que Blake tinha caído no “domínio do público” e não valia mais a pena ser tratado como “a quarta estrela” gideana. Ao longo do tempo foram aparecendo As Núpcias, O Matrimônio, o Enlace, a Aliança, a União e até – em Portugal, é claro – A Conjunção (do Céu e do Inferno), o que me dava a impressão de que a prosa direta e visionária de Blake estava passando por processos de retocagem gongórica, sofrendo um empolamento bombástico capaz de fazê-la perder seu impacto subversivo e contestador. Good-bye, Blake!

No ano passado, recebi um convite da Editora Hedra (leia-se Bruno Costa), de S. Paulo, para traduzir o Jerusalém, de William Blake. Desculpei-me, dizendo que, com o 3º volume da Obra Completa de Rimbaud (Correspondência), eu dava por encerrada minha “carreira” de tradutor e ia tratar de fazer um segundo livrinho de versos meus (o primeiro, A Caça Virtual e outros poemas, havia aparecido em 2001). Como alternativa, aceitei fazer o prefácio para Sagas, uma coleção de contos de Strindberg, autor da minha mais franca predileção. Mas o convívio com a Editora, que esperava ainda lançar uma tradução minha, fez com que, de pura brincadeira, eu lhes propusesse casamento. Sim, seria, desta vez, o Casamento sem rebuços, sem berloques, sem firulas. Blake restituído à sua prosa agressiva, contestatória, modernamente poética. Teríamos o fechar de um ciclo: o primeiro livro que sonhei traduzir seria o último a ser traduzido por mim. E assim foi. # FIM #

IVO BARROSO

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