6 de dez de 2009

ivo barroso - itinerários VI


DE ESPADA EM PUNHO

Como em Dumas, meus três tradutores-mosqueteiros eram quatro: Mílton Amado, Agenor Soares de Moura, Onestaldo de Pennafort e Carlos Porto Carreiro. Os dois primeiros eu havia conseguido homenagear com livros; os dois últimos o seriam com longos artigos. Mas, para chegar a tanto, tive que enfrentar desagradáveis frustrações.
A admiração que sempre tive pelas traduções de Onestaldo de Pennafort, principalmente pelas suas “encarnadas” versões dos poemas de Verlaine, sempre me fizera prometer a mim mesmo escrever algo a seu respeito, já que seu nome parecia desconhecido entre as novas gerações. Ele foi o mais perfeito intérprete do poeta francês em língua portuguesa, a ponto de suas Festas galantes se tornarem um livro de poesias de nossa literatura. Stefan Zweig, que se refugiara no Brasil em 1940, assim se dirige ao tradutor: “Ainda não falo o português, mas leio-o, e ainda mais facilmente numa tradução de poesias que sei de cor. O senhor gostará de saber que possuo o manuscrito original das Fêtes galantes [...] Que alegria ao ler Verlaine na língua de seu tradutor e captar-lhe ainda assim a música!” Além de Verlaine, Onestaldo havia conseguido dar ao Romeu e Julieta, de Shakespeare, a jovialidade, a leveza, a graça da obra original. E, no extremo oposto, toda a coloração sombria da tragédia cruel vivida por um Otelo transtornado de ciúmes. Além disso, havia suas obras originais, de grande versatilidade e de sutil leveza.

Compus um longo ensaio que ficou guardado por uns tempos à espera do veículo adequado para divulgá-lo. Houve época em que fui um dos redatores da revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, e julguei que estaria ali o espaço ideal para estampar o artigo. Mas por várias circunstâncias a matéria não saiu. Só em março de 2007, já de todo afastado da Poesia Sempre, encontrei guarida na Revista do Livro, órgão de divulgação cultural da mesma entidade, dirigida pelo prof. Elmer Barbosa. Estampada no nº 48, Ano 15, de março de 2007, esperei em vão por um exemplar da revista para ter a certeza de que a homenagem se efetivara. Depois de quase um ano, vim a saber que o tal número, dedicado quase inteiramente à literatura italiana, teve toda a sua tiragem distribuída num salão do livro que homenageava o Brasil na... Itália. Aqui, não restou disponível nenhum exemplar da revista. Foi graças à gentileza da Dra. Célia Portella que consegui ter em mãos a revista e constatar que de fato o artigo saíra (e estava sendo lido (?)... na Itália). Para compensar o extravio, estou cogitando de imprimir uma plaquete que, desde já, ofereço a todos os que se interessarem pelo assunto.
Embora, cronologicamente, Porto Carreiro tenha sido a minha predileção mais antiga, meu inesquecível D´Artagnan, até hoje não consegui lhe fazer a devida vênia, tirando-lhe o chapéu no gesto largo de arrastar pelo chão a pluma da Gasconha.

Sua tradução do Cyrano de Bergerac, que eu sabia quase toda de cor, de tanto lê-la, que abriu para mim as portas da conquista amorosa, sempre mereceu meu preito e minha gratidão. Que poderia fazer para divulgar seu nome, proclamar a excelência de sua façanha tradutória? Em 1997, centenário da primeira representação da peça, graças ao meu editor José Mário Pereira, íamos lançar uma cuidada edição bilíngue da peça, escoimada de alguns erros constantes das edições anteriores. Escrevi uma extensa apresentação em que falava não só do autor Edmond Rostand, mas igualmente de seu imortal intérprete Coquelin, de Sarah Bernard e do verdadeiro Cyrano, terminando por comentar os poucos dados biográficos que havia sobre o tradutor, mas ressaltando-lhe a genialidade da transposição. Professor de direito no Recife, Porto Carreiro apaixonou-se pela peça e traduziu-a tão logo foi representada. Dizem que ia de bonde para a Faculdade e não raro saltava a meio caminho para anotar algum verso que lhe ocorrera no trajeto. Desse extraordinário feito tradutório (considero-o a maior tradução de teatro em versos que conheço em língua portuguesa), disse, à época, o ferrenho crítico José Veríssimo, que considerava “em alguns pontos a tradução melhor que o original”. Esse tipo de frase tem sido modernamente criticado: Pode uma tradução ser melhor que o original? Claro que não, mas acredito que, num verso ou noutro, isto possa ocorrer em poesia: o tradutor encontrar uma expressão, um torneio de frase, uma palavra perfeita que faça o verso mais expressivo em sua língua do que o era no original. Para tanto é necessária uma integração, uma “encarnação” absoluta do tradutor na obra que traduz. França Pereira, contemporâneo de Porto Carreiro, assim o evoca: “Lembro-me bem do fulgor de seu olhar febricitante, do riso que lhe brincava nos lábios e do tremor que lhe agitava as mãos, ao falar-me do seu Cyrano, como se ele quisesse reviver ante meus olhos deslumbrados o velho galrão da Gasconha num outro poema dramatizado. O que o desanimava, dizia-me, era a suspeita de se frustrarem seus esforços neste 'meio' onde o galardoariam talvez com esta frase esmagadora: -- Ora! Uma tradução! – E mais nada.” E até hoje há quem, ligado às letras, tenha um conceito inferiorizante sobre tradução. Digo que uma tradução pode ser o “equivalente” da obra original em outra língua. Porto Carreiro criou um Cirano em português, assim como Onestaldo criaria suas Festas galantes. Duas obras geniais francesas vivendo seu momento literário no idioma português.

Mas, encurtando: como queríamos fazer uma edição de luxo, em papel de qualidade, possivelmente com ilustrações, o projeto gorou dentro do tempo previsto. Passou o centenário e a minha homenagem, por insignificante que fosse, não chegou a realizar-se. E – frustração das frustrações – em 2002 encontro na minha banca de jornais uma edição de bolso, capa preta com uma gravura dourada do narizão cirenaico, que ainda não constava de minha coleção e que podia ser adquirida a preço módico. Quem seria o destemido tradutor que, sabendo da existência da façanha de Carreiro, ousava enfrentar as dificuldades do Cirano? Abro a capa e leio o nome do “herói”: Fábio M. Alberti, mas – pasmo! – logo aos primeiros versos ao constatar que eram os mesmos de Porto Carreiro, amados versos que eu sabia de cor e nem precisava ir a casa cotejar. Um plágio desconcertante. O “herói”, no caso, não passava de um deslavado farsante. Precisava denunciá-lo. Escrevi imediatamente um artigo, Cyrano em “tradução clonada”, que saiu no Idéias do JB em 21.09.2002 e foi logo transcrito em outros jornais do Nordeste e no prestigioso blog de Soares Feitosa. A Editora Nova Cultural, para a qual mandei uma cópia do artigo, telefonou-me passado algum tempo dizendo que tinha havido um engano e que o nome de Porto Carreiro seria restaurado nas próximas edições (o que não ocorreu até hoje). Pouco tempo depois, dou com outro roubo descarado, das Flores do Mal, de Charles Baudelaire, cuja antiga tradução de Jamil Almansur Haddad aparecia na edição da Martin Claret com o nome de Pietro Nassetti (?). Meu artigo Flores roubadas do jardim alheio saiu no Rascunho de maio de 2003. Revoltado com tais descaramentos, eu mal sabia que estava simplesmente tocando a crista do iceberg.

Em 2007, voltei à carga junto ao meu editor: vamos lançar o livro no 110º aniversário da estréia da peça! é sempre uma efeméride, e os editores e leitores gostam dessas datas redondas. Acrescentei novos dados ao prefácio, citei as atuais edições francesas, a recente encenação da Comédie Française, os vídeos que surgiram, as traduções italianas e alemãs. Mas, de novo, o dinheiro foi curto e a obra não saiu. Mas como Cirano, no último ato da peça, junto à arvore frondosa, embora ferido por causa das minhas frustrações, empunho a espada das determinações e digo para mim: Eu me bato! Eu me bato! Eu me bato! #

IVO BARROSO

imagem: coquelin como cyrano, google images

2 comentários:

  1. José Lira6.12.09

    Caro Ivo,

    Concordo com tudo que você disse sobre Onestaldo de Pennafort, um grande poeta hoje esquecido. Tenho o seu texto sobre ele, mas fico na fila para receber a plaquete da Revista do Livro. Quanto ao Cirano de Porto Carreiro, espero que você não desista de reeditá-lo, até como forma de dar maior amplitude à sua luta contra esse plágio infame.

    Meu abraço,

    José Lira

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  2. Anônimo25.9.11

    Você tem a minha admiração por sua luta constante contra essa vergonha que é o plágio.Obrigada!
    Sou apaixonada por esse livro e o tenho em mãos com essa suposta tradução de Fábio. M. Alberti.

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