04/12/2009

Formando professores com plágios e falsificações

Fico arrasada de ver como tantas editoras têm uma atitude de descaso quanto ao que publicam, deixando, por exemplo, de indicar as fontes dos textos traduzidos. Ou pior, indicando a fonte errada (vocês se lembram da história da tradução de Edgar Allan Poe no Brasil, em que se passou a afirmar que as Histórias Extraordinárias eram uma tradução de Tales of the Grotesque and Arabesque?)

Isso pode parecer excesso de erudição, desnecessário ao leitor comum, mas a verdade é que pode induzir ao erro leitores, estudantes e até mesmo professores interessados em entender a obra de maneira um pouco mais completa. Refiro-me aqui, mais especificadamente, a edições do Satíricon, de Petrônio, em que algumas editoras incorporam, ao texto latino estabelecido como original, falsificações reconhecidas, como se se tratasse de um único texto de Petrônio (veja mais sobre essa fraude renascentista aqui).

Mas fico mais arrasada ainda quando editoras plagiam traduções alheias e as fazem  circular por aí, como se fossem obras legítimas. O Satíricon publicado pela Martin Claret, com plágio assinado pelo fantasmagórico Alex Marins, é uma dessas aberrações que, para piorar, tem sido indicado como referências para a formação de professores!!!




Não só está presente em ementas de cursos de Bacharelado e Licenciatura de Letras, mas também é recomendado por livros sérios que pretendem orientar o ensino de História nas salas de aula. É indicado como leitura pela Casa Brasil, do governo Federal, para “desperta[r] para a importância do registro de nossas vivências atuais, que também servirão de ferramentas para a preservação e formação da identidade das comunidades futuras”. Isso sem contar os pobres estudantes ludibriados que desenvolvem todo um trabalho tendo como fundamento uma edição espúria, sendo para tanto orientados por distintos professores de grandes universidades públicas brasileiras.

Cursos de Letras
http://www.fasete.edu.br/arquivos/file/secretaria/2008/LETRAS%202008%20PDF/IV%20PER%C3%8DODO/Literatura_Latina.pdf
http://www4.fapa.com.br/folder/programas/1310/2007/543.pdf

Bibliotecas
http://www.unimeo.com.br/biblioteca/pdf/ref_letras.pdf
http://biblioteca.claretiano.edu.br/cgi-bin/wxis.exe?IsisScript=phl8/003.xis&cipar=phl.cip&bool=exp&opc=decorado&exp=PROSTITUTAS&code=%E2%8C%A9=por

Casa Brasil - Oficina do governo Federalhttp://www.casabrasil.gov.br/oficinas/files/OficinaHoraDoConto-ManualParticipante.pdf

Obra de referência para formação de professores de História
História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas

“Há, hoje, boas obras disponíveis em português e que podem trazer bons frutos em sala de aula, como as Fábulas de Esopo (Porto Alegre, L&PM, http://www.lpm.com.br/)* ou, para o ensino médio, a coleção da Martin Claret (http://www.marticlaret.com.br/), com obras como o Satyricon de Petrônio (que pode ser muito bem acoplado ao filme de Federico Fellini, Satyricon).”

* A que eu saiba, uma tradução perfeitamente legítima de Antônio Carlos Vianna.

Trabalho de estudante
Artigo para revista acadêmica: Satyricon e tradução poética: traduções brasileiras perante sutilezas cruciais da poesia de Petrônio
Que se desenvolveu em uma dissertação de mestrado: Satyricon e tradução poética: traduções brasileiras perante sutilezas cruciais da poesia de Petrônio

Neste trabalho o estudante compara quatro (e depois cinco, quando sai a edição da Cosac Naify) edições do Satíricon, inclusive a da Martin Claret, pois considera "aqui apenas as traduções feitas diretamente do latim."

Este último exemplo retoma bem a questão proposta acima: o estudante, seu orientador, seus leitores e acadêmicos, que vão usar o seu texto como referência - já que se trata de um trabalho científico, publicado em uma revista séria (Cadernos de Tradução da UFSC), e depois defendido como dissertação de mestrado de uma grande universidade federal brasileira (a UFSC) - são enganados pelo menos três vezes pela edição da Martin Claret, que induz explicitamente ao erro indicando na capa que se trata de "Texto Integral".(É verdade que não menciona em lugar nenhum a fonte direta do latim ou não)
1 - Ao acreditarem que o texto é todo de Petrônio  - quando vimos que parte dele são falsificações compostas por François Nodot em 1692, mas não identificadas como tal;
2 - Ao acreditarem que a tradução foi feita por Alex Marins* - quando na realidade se trata de um plágio da tradução de Marcos Santarrita
3 - Ao acreditarem que a tradução foi feita diretamente do latim - quando sabemos que a tradução por ele copiada foi feita por interposição do francês.

É assim que se formam professores no Brasil.

* A propósito da atribuição da tradução, o próprio estudante reconhece, na página 111 de sua dissertação que Alex Marins está sob suspeita de plágio, mas estranhamente não procura identificar se houve plágio neste caso.

7 comentários:

  1. que tristeza! e curiosamente a dissertação de mestrado acima citada atribui a data de 1970 à primeira publicação de satíricon no brasil, pela atena, na trad. de miguel ruas. na verdade, a primeira ed. dessa tradução, até onde sei, é de 1950.
    embora o autor da dissertação discorra longamente sobre os plágios e suspeitas de plágio da martin claret em geral e de alex marins em particular, mesmo assim opta por tratar esse plágio como se fosse uma trad. de direito próprio. e curiosamente não aborda a trad. de santarrita, que é a fonte do plágio...

    complicado. e é um mestrado em estudos de tradução - que longo caminho ainda temos pela frente!

    linda a figurinha!

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  2. ooops, desculpe, fui conferir em seu post inicial sobre o satíricon, a trad. de miguel ruas é de 1949!

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  3. Pois é, Denise. Mas a razão justificada pelo autor da dissertação por não incluir a tradução de Marcos Santarrita é que ele optou por apenas comparar as traduções DIRETAS DO LATIM. Página 108: "Há ainda uma tradução indireta do francês, feita por Marcos Santarrita, publicada pela editora Abril [na realidade essa tradução foi publicada primeiramente pela Civilização Brasileira, em 1970]. Esta tradução, no entanto, não nos interessa aqui; interessa-nos somente as traduções feitas diretamente do texto latino". Agora, como decidiu que a tradução do plagiador Marins era direta do latim, eu não sei. Talvez pelo fato de ter a famigerada menção "texto integral" na capa? Em todo caso é curioso que quando chega às conclusões ele se espante dizendo “é particularmente difícil encontrar razões que nos levem a compreender melhor suas escolhas e seu desempenho; não sabemos em que texto se baseou para fazer a tradução, não sabemos de suas concepções, não sabemos sequer se essa pessoa existe.”

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  4. Pois, não gosta de plágio, mas foi buscar a foto ao meu blog... A ironia...

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  5. prezado mindmakers, peço desculpas. você certamente viu que os créditos foram devidamente dados a seu blog.
    mas, se mesmo assim vc se sente incomodado, a autora do post certamente retirará a imagem e seus devidos créditos a seu blog.

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  6. Prezado Mindmakers,

    Mil desculpas. A imagem é de sua autoria? Eu a encontrei em diversos endereços sem descobrir quem exatamente seria o autor. Por isso mesmo dei os créditos e link para o seu blog, de onde a peguei afinal, justamente para não haver dúvidas quanto à origem da imagem. Estou a retirando agora mesmo do post. Agradeço sua visita e compreensão. Gostaria apenas de lembrar a outros leitores que possam ter ficado na dúvida de que plágio se define por um ser uma cópia de alguma obra na qual eu atribuiria a mim (ou a outra pessoa) a autoria. Não foi o caso aqui.
    Atenciosamente,
    Joana

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  7. pois é... achei estranho, pois afinal o blog mindmakers não dá a fonte original e a autoria da imagem - anônima, será? ... se eu encontrar, aviso a ele, pois ninguém gosta de plágio ;-)

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