8 de dez de 2009

da matos peixoto à cedic



muitas editoras acabam desaparecendo da memória cultural do país. é triste, mas é verdade. às vezes, são anos e anos de dedicação e trabalho constante, a editora não dá certo, ou por qualquer razão encerra as atividades, e não raro, passado algum tempo, mal restam rastros ou lembranças dela.

matos peixoto parece ser um desses casos. foi uma pequena editora dos anos 60, de propriedade do sr. paulo matos peixoto. tenho sua edição de a volta ao mundo em oitenta dias, integrante da "coleção júlio verne", e no ano passado descobri que a suposta tradução publicada pela editora martin claret em nome de "pietro nassetti" em verdade era simples cópia da tradução de vieira neto, publicada em 1965 precisamente pela matos peixoto, em edição ilustrada de capa dura. apresentei esse cotejo em rodando o mundo (e as editoras).

não há nenhuma publicação da matos peixoto no acervo da fundação biblioteca nacional. já nos sebos que integram a estante virtual, encontram-se várias dezenas de títulos que a editora publicou nos anos 60, sobretudo entre 1964 e 1966. diga-se de passagem que qualquer historiador da cultura e do desenvolvimento editorial no país terá sempre uma dívida incalculável para com os sebos, muitas vezes os últimos depositários de uma memória do passado. mas, voltando à matos peixoto, assim como surgiu, desapareceu.

no finalzinho dos anos 80 surge uma outra pequena editora, de nome paumape, sigla do nome de seu proprietário, o já referido sr. paulo matos peixoto. teve vida ainda mais breve, e sua atividade praticamente se concentrou em publicar obras jurídicas de ulderico pires dos santos e reeditar vários títulos do antigo catálogo da matos peixoto. a fundação biblioteca nacional possui em seu acervo alguns exemplares da paumape (16), e nos sebos se encontram várias publicações suas.

em 2002/2003 surge mais uma outra pequena editora, de nome germape, sigla, até onde sei, de "gertrud matos peixoto", esposa do sr. paulo. aparentemente mantém-se em atividade - entrei em contato com seu escritório, mas não foi possível falar com a responsável editorial, de nome vera. a germape também tem relançado títulos da matos peixoto. a fundação biblioteca nacional possui em seu acervo um maior número de publicações (66), e nos sebos há várias edições suas.

de modo geral, os títulos que compõem o "projeto ler literatura universal" da cedic já faziam parte do antigo catálogo da matos peixoto dos anos 60, e/ou constavam no catálogo da paumape e depois no catálogo da germape. isso pareceria sugerir uma parceria normal entre elas, porém com algumas diferenças editoriais: por exemplo, a edição da germape da divina comédia consta na fbn com a tradução devidamente creditada a hernâni donato, ao passo que a edição da cedic, ao omitir qualquer indicação de autoria ou de dado catalográfico, desliza para a ilegalidade.*

essa relação entre matos peixoto, paumape, germape e cedic ajudaria a explicar os bizarros critérios de seleção que esta última utilizou para compor sua coleção de literatura universal - mais do que aspectos propriamente literários, o que parece ter prevalecido é um simples aproveitamento de catálogo.

adiante retornarei ao tema, sob o ponto de vista mais específico das traduções.

* refiro-me tão-só à correta atribuição da autoria, como direito moral do tradutor e direito do leitor à informação correta, ambos protegidos por lei. já se a germape e a cedic têm ou não licença de uso da tradução de hernâni donato, são outros quinhentos.

imagem: françois bonvin, natureza morta com livro, papéis e tinteiro

8 comentários:

  1. Oi, Denise,
    Parece que o Paulo Matos Peixoto fez uma traduçãoem prosa de Paraíso Perdido, de Milton (Paumape, 1995).

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  2. pois é, né, marlova? consta no catálogo da paumape. parece ser a tradução de uma adaptação já existente em inglês. agora, quanto à sua fidedignidade, não posso dizer nada.

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  3. Senhora Denise,
    Qual a melhor tradução de Paraíso Perdido, de John Milton? a da Clássicos Jackson, traduzida por Antonio Jose Lima Leitão, a edição da Biblioteca Paumape de Literatura ou alguma outra? pelo que andei lendo, parece que a melhor é qualquer uma exceto qualquer coisa da Martin Claret.

    Obrigado e atenciosamente.

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    1. olá, rafael: não sei dizer. pessoalmente li a do lima leitão e gosto dela.

      um abraço,
      denise

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    2. olá, rafael: não sei dizer. pessoalmente li apenas a do lima leitão, que é mesmo a mais conhecida, apesar de tão antiga, e gosto bastante dela.
      um abraço,
      denise

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    3. Obrigado, Denise
      Fiquei sabendo no Mercado Livre que o tradutor da edição Paumape se chama Paulo Matos Peixoto. Fica a referência. Obrigado

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  4. Mas afinal essa tradução da Paumape, de um modo geral, é boa ou não?

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  5. como assim, oliveira? aqui rastreio o histórico de algumas editoras, não faço análise literária de traduções.

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