17 de dez de 2009

comentário

uma visita deixou um comentário interessante no blog. envolve questões delicadas e, como não posso assumir a responsabilidade de divulgá-lo por falta de dados suficientes, tive por bem não o publicar. por outro lado, não vejo por que a notícia haveria de ser um factoide e, de qualquer forma, pode-se tomá-la como uma espécie de parábola, com boa matéria para reflexão. reproduzo aqui o principal de seu conteúdo.
Comprei o livro A da editora B, para fazer meu trabalho de conclusão do curso e, para minha surpresa, havia vários erros de concordância, de tradução e de digitação. Enviei um e-mail para o sr. X, alertando-o do problema, mas não obtive resposta. Fiquei realmente indignada, pois comprei o livro e gostaria de ter podido usá-lo para o embasamento do meu trabalho... Resumindo: fui ao tribunal de pequenas causas e, na audiência conciliatória, a editora não quis nenhum acordo. Vamos, então, para a próxima etapa: audiência de instrução e julgamento.
não conheço a edição específica que a comentarista mencionou e não me cabe julgar do mérito ou demérito da questão. mas achei fenomenal a iniciativa da moça. se cada leitor que comprasse um livro com vários erros de revisão, digitação e tradução resolvesse reclamar, fosse devolver na livraria ou, como no relato acima, fosse ao tribunal de pequenas causas, creio que em seis meses ou, no máximo, um ano todos poderíamos contar com uma qualidade editorial imbatível no país.
 
a meu ver, por todos os lados que se olhe a questão, a moça estaria coberta de razão: moralmente, civicamente, culturalmente, economicamente, juridicamente. belo exemplo - e, se non è vero, è ben trovato.

em tempo: o material divulgado neste blog é público e pode ser livremente utilizado segundo a licença creative commons.
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10 comentários:

  1. Denise,
    muito interessante! Se você tiver noticias do desfecho deste caso e se for possível publicar seria mais interessante ainda.

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  2. que maravilha, denise. até retuitei. tomara que a moça ganhe a causa e, mais ainda, que a moda pegue. bj.

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  3. Anônimo17.12.09

    Cara Denise, a moça até pode ter razão em pleitear qualquer coisa, mas me parece mais uma tentativa de tentar obter vantagem financeira sobre a questão, pois ela alega - na transcrição que você apresenta - que ela foi impedida de realizar o trabalho de conclusão de curso por causa disso. Foi impedida por quê? A obra apresenta 100% de erros nas questões que ela apresenta? Muito difícil de se acreditar nisso. Enventuais erros sempre podem ocorrer e para isso que existem outras edições, até porque o novo acordo ortográfico vai exigir que todas as editoras re-editem suas obras. Acredito que antes de se aplaudir qualquer iniciativa devemos raciocinar sobre a questão e se separar o joio do trigo, não acha? Espero que meu post seja publicado, dando direito a todas as formas de opiniões e debates. Abraços, Carlos Azevedo

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  4. prezado carlos: esclarecendo - naturalmente seu post é publicado. tive por bem não publicar a íntegra do comentário pelas razões acima expostas. o que interessa é a questão geral: o leitor começar a se ver como consumidor, pessoa física dotada de direitos constitucionais para reclamar quando adquire produtos defeituosos.

    no caso de um livro, até onde sei ainda não existe uma definição oficial objetiva de um patamar de tolerância de falhas, mas creio que é uma questão importante até para que se comecem a definir alguns parâmetros de aceitabilidade do produto. em geral, creio que os atuais critérios usados vão mais pelo senso comum, tipo quando vêm folhas faltando ou páginas em branco. aí é mais fácil trocar o produto, a própria livraria troca. mas se o cliente se sente lesado, entra em contato com o fabricante, não é atendido, continua a se sentir lesado, não vejo por que não poderia e não deveria reclamar.

    não sei se você acompanhou o caso do livro didático que foi distribuído pela secretaria de educação, com um mapa que tinha eliminado se não me engano a argentina, e trazia dois paraguais. se não fosse um livro distribuído oficialmente às escolas, quantos alunos ou professores teriam reclamado? e a dificuldade que foi para retirá-los e substituí-los, e o jogo de empurra-empurra na hora de assumir as responsabilidades! a meu ver, o caso que ilustrei acima pode talvez vir a apontar novos caminhos, inclusive jurídicos, para um maior respeito ao leitor consumidor.

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  5. Anônimo17.12.09

    Concordo com você em suas diversas colocações, mas o que devemos evitar é que esses "novos caminhos" se tornem algo que acabe por criar novos meios de se obter vantagens, sobretudo financeiras sobre empresas e/ ou outras pessoas. Você sabe tão bem quanto nós que os erros de revisão são inevitáveis e como tradutora, você também sabe que o estilo empregado pelo tradutor nem sempre atende às expectativas de todo o público. Sempre vai ter alguém "infatisfeito" com algo, seja um termo ou frase traduzido de um modo diferente, seja uma palavra que por força da diagramação ou mesma digitação tenha saído errada ou mal separada. Entende? Uma coisa é o exemplo postado por você onde uma empresa contratada pelo governo estadual de SP produziu um livro de geografia onde o Uruguay simplesmente desapareceu e dois Paraguays apareceram. Isso é serviço mal realizado e ainda mais com o dinheiro público. Outra coisa são os exemplos que acabei de colocar que são problemas de interpretação e entendimento pessoais e eventuais falhas na produção editorial, muitas vezes inevitáveis, haja vista que não há obra 100% perfeita (já encontrei inúmeras falhas em obras best-sellers lançadas por grandes editoras brasileiras, nem por isso tentei tirar alguma vantagem delas ou mesmo dos tradutores das obras). Retorno à questão principal: os "novos caminhos" mencionados por você devem servir para regular o mercado não tirar vantegens, pois algumas pessoas ficam mais preocupados com os "erros" de digitação do que com o trabalho em si, ou tentam de um modo completamente inadequado impor a sua opinião sobre o modo que uma expressão pode ser traduzida e adaptada para a lingua portuguesa. Já dizia Monteiro Lobato que os erros de revisão são como o Saci, sempre aparecem quando nós menos esperamos. Abraços, Carlos Azevedo.

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  6. sim, claro, concordo, e sempre teria alguém procurando pelo em casca de ovo. como disse, acho interessante o princípio geral de começar a se cobrar objetivamente que o livro seja também tratado como bem de consumo, tendo de atender a algum critério básico de qualidade - qual critério básico seria, é que se teria de ver. acho que abre um precedente para debate.
    mas claro, na questão mais detalhada, concordo integralmente com suas ponderações.

    desculpe, quem sumiu do mapa foi o uruguai, confusão minha.

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  7. Cara Denise: excelente a iniciativa da moça. De fato, eticamente, há dois grandes prejudicados com uma tradução (ou edição) de má qualidade: 1) o autor, que se quiser pode entrar, penso eu, com uma ação por danos morais e econômicos, porque seu pensamento ou sua criação foi deformado/a; 2) o leitor, como consumidor, porque adquiriu um produto errado. Acredito que os colegas que advertiram contra a tentativa de extrair ganhos excessivos têm razão se houver um descompasso grande entre o prejuízo causado pela má tradução e a indenização pleiteada, mas essa me parece ser a exceção e nao a regra. O fato é que - sempre falando do ponto de vista ético e não jurídico, porque não tenho formação em Direito - um leitor já é prejudicado quando lê algo errado, porque mal traduzido, mal reproduzido ou o que seja. Não vejo necessidade de justificar um pedido de indenização com base em concurso que se prestou, prova que se realizou ou algo, assim, de face mais material. Bastaria eu ter comprado uma "mercadoria" (lamento chamar assim um livro, mas é esse o caso, na hora em que usamos o código de defesa do consumidor) que não seja boa. Pois não temos o direito de pedir a troca de um produto com defeito de fabricação? E o que é um livro escandalosamente mal traduzido, se não um produto com enormes defeitos "de fábrica"? Agora, é claro que um erro ou outro de digitação ou mesmo de tradução não justificaria, a meu ver, polpuda indenização. Que, aliás, nunca será polpuda...
    A rigor, me parece que o consumidor descontente pode pedir um valor monetário ou a entrega do produto sem o defeito. Prefiro até o segundo caso - isto é, uma má tradução levaria o editor a ter de refazê-la. E a fazer um recall do produto defeituoso.
    Um abraço a todos,
    Renato

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  8. Estou com o Renato Janine. Qualquer profisional do meio editorial, ou mesmo um juiz - entendendo-se que este seja íntimo de livros - sabe distinguir entre um simples lapso de revisão, ou até algum pequeno problema de tradução, daquela obra visivelmente malproduzida.

    Entendo o ponto de vista do Carlos Azevedo, mas, como revisora, creio que seria ridículo um leitor entrar na justiça por causa de um pastel ou uma palavra eventualmente inadequada. Até porque leitores à procura de erros (que lhes possa render alguma indenização!?) costumam ser bastante superficiais.

    Mas um livro visivelmente mal editado merece um recall, como disse o Renato. Para que a editora aprenda a contratar e a bem remunerar profissionais, não arrivistas.

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  9. e ñ é q vc me deu uma boa ideia... acho q vou fazer isso e ver no q dá.

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  10. Muitas vezes as pessoas pensam, pensam... antes de ir ao tribunal de pequenas causas. A audiença de conciliação pode em si só resolver o problema, sem necessidade de ir em frente.

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