11 de ago de 2009

pragas



outro dia estava folheando escola de tradutores do rónai (1975), e lá ele já reclamava das fraudes e plágios de tradução, principalmente literária. não citava nomes, falava por cima, meio genericamente, e aventava algumas possíveis razões para o fenômeno. mas com certeza não achava aquilo muito bonito.

por exemplo, tenho um pouco de engulhos quando leio ruy castro, em sua biografia do nelson rodrigues, contando como se fosse algo muito divertido e sapeca o episódio arquiconhecido de que o alfredo machado da record dava um dinheirinho para o nelson, que não sabia nem como se dizia gato em inglês, para usar o nome dele como se tivesse traduzido o harold robbins, para vender mais, pois o povo associaria o nome do tradutor com sacanagem... !

e acho graça que nelson rodrigues tenha ficado assanhadíssimo numa certa época, quando lhe disseram que o vestido de noiva ia ser traduzido em vários países. as traduções esperadas naquela época não saíram - mas fico imaginando algum alfredo machado da tchecoslováquia pagando uns dinheirinhos por fora para seus anjos pornográficos de plantão darem seu nome à tradução do vestido de noiva e assim vender mais, enquanto algum pobre semitradutor que não gostava de dicionário e achava que michaelmas era nome de um lugar no interior da inglaterra inventava alguma coisa qualquer para o abacaxi em português que o chefe lhe passara... quem ia poder reclamar?

nem paulo rónai nem ninguém precisa ir muito longe para explicar nossa jequice monumental.

faço o nãogostodeplágio, vou continuar a fazer, porque acho que uma das maneiras de ajudar a controlar a praga é ir de um em um, dar os nomes aos bois, mostrar, documentar, e se for o caso recorrer à justiça contra essas baixarias. mas que às vezes dá um nojo, isso lá dá!

4 comentários:

  1. Meus parabéns pelo trabalho. Dá gosto ver uma atitude como a sua.

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  2. Anônimo11.8.09

    Pois é, Denise, esse episódio de Nelson Rodrigues só ilustra como as pessoas 'ishpertas' desse Brasilzão de merda, com o perdão da palavra, contam com a ignorância da esmagadora maioria dos brasileiros. E ainda tenho que ouvir de gente supostamente letrada que, tradução por tradução, qualquer uma serve "para ter noção" da obra...
    Acho muito bonito o que você faz no seu blogue. Pela cultura mesmo, não só para defender a categoria dos bons profissionais da tradução, entende?
    Paula Aryana de Sena

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  3. E o texto de O Globo no sábado ainda enalteceu isso. Lamentável.
    Parabéns pelo texto.

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  4. prezado cassioney: o episódio parece ter ingressado com tal naturalidade no panteão das galhofas nacionais que se tornou uma espécie de "simpático folclore". de fato lamentável!

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