24 de ago de 2009

conta outra

a megera domada, de shakespeare, foi publicada pela martin claret com pretensa tradução em nome de "alex marins".
a capa é um photoshop medonho em cima da emma thompson com kenneth branagh.

o texto é um fidelíssimo plágio, de cabo a rabo, da tradução anotada de almeida cunha medeiros (com oscar mendes), que saiu pela josé aguilar em 1969, reeditada pela abril cultural e depois pela nova aguilar.

1. almeida cunha medeiros com oscar mendes:

lord
e: como de um sonho enganoso ou de uma vã fantasia... levantai-o, pois, e combinaremos bem a brincadeira. transportai-o cuidadosamente para meu mais belo quarto e enfeitai-o com meus quadros mais licenciosos. perfumai-lhe a asquerosa cabeça com cálidas águas perfumadas, e queimai madeiras odoríferas para perfumar o aposento. procurai-me músicos que, quando ele despertar, deixem ouvir uma melodia doce e celeste. se por acaso falar, estai dispostos a cumprir-lhe as ordens e respondei fazendo uma respeitosa reverência: "que deseja vossa excelência?" um de vós se apresentará com uma bacia de prata cheia de água de rosas e juncada de flores. outro trará um jarro; um terceiro, uma toalha adamascada e dirá: "vossa senhoria deseja refrescar as mãos?" um outro já lhe esteja à disposição com um rico guarda-roupa e lhe pergunte com que traje ele deseja vestir-se. fale-lhe outro dos cães e cavalos e da esposa que se encontra desolada vendo-o doente. persuadi-o de que esteve lunático5 e se afirma ser o que é, respondei-lhe que ele sonha, porque é nada menos do que um poderoso senhor. fazei assim, amáveis senhores, e fazei-o com jeito. será a brincadeira mais engraçado [sic] do mundo, se vos conduzirdes com discrição.5. lunáticas eram as pessoas perturbadas pla influência da lua, sendo uma loucura intermitente sujeita às fases do satélite terreno.

2. alex marins:

lor
de: como de um sonho enganoso ou de uma vã fantasia... levantai-o, pois, e combinaremos bem a brincadeira. transportai-o cuidadosamente para meu mais belo quarto e enfeitai-o com meus quadros mais licenciosos. perfumai-lhe a asquerosa cabeça com cálidas águas perfumadas, e queimai madeiras odoríferas para perfumar o aposento. procurai-me músicos que, quando ele despertar, deixem ouvir uma melodia doce e celeste. se por acaso falar, estai dispostos a cumprir-lhe as ordens e respondei fazendo uma respeitosa reverência: "que deseja vossa excelência?" um de vós se apresentará com uma bacia de prata cheia de água de rosas e juncada de flores. outro trará um jarro; um terceiro, uma toalha adamascada e dirá: "vossa senhoria deseja refrescar as mãos?" um outro já lhe esteja à disposição com um rico guarda-roupa e lhe pergunte com que traje ele deseja vestir-se. fale-lhe outro dos cães e cavalos e da esposa que se encontra desolada vendo-o doente. persuadi-o de que esteve lunático5 e se afirma ser o que é, respondei-lhe que ele sonha, porque é nada menos do que um poderoso senhor. fazei assim, amáveis senhores, e fazei-o com jeito. será a brincadeira mais engraçado [sic] do mundo, se vos conduzirdes com discrição.
5. lunáticas eram as pessoas perturbadas pla influência da lua, sendo uma loucura intermitente sujeita às fases do satélite terreno.
1. almeida cunha medeiros com oscar mendes:

lu
cêncio: trânio, já que para satisfazer meu vivo desejo de ver a formosa pádua, berço das artes, cheguei à fértil lombardia, aprazível jardim da grande itália e, graças ao amor e permissão de meu pai, encontro-me amparado por sua boa vontade e por tua boa companhia, meu fiel servidor a toda prova, respiremos aqui um pouco e comecemos com felicidade um curso de sabedoria e de estudos engenhosos. pisa, célebre pela gravidade de seus cidadãos, deu-me o ser, como o deu a meu pai, mercador de grandes relações, chamado vicêncio, descendente dos bentivoglio. o filho de vicêncio, educado em florença, realizará as esperanças fundadas nele, ao adornar sua fortuna com ações virtuosas. e assim, trânio, durante o tempo de meus estudos, aplicar-me-ei à virtude e àquela parte da filosofia que trata da felicidade que a virtude procura especialmente. dize-me o que pensas, pois abandonei pisa e vim a pádua como um homem que deixa um charco pouco profundo para mergulhar num oceano e procura com ânsia estancar a sede.

2. alex marins:

lu
cêncio: trânio, já que para satisfazer meu vivo desejo de ver a formosa pádua, berço das artes, cheguei à fértil lombardia, aprazível jardim da grande itália e, graças ao amor e permissão de meu pai, encontro-me amparado por sua boa vontade e por tua boa companhia, meu fiel servidor a toda prova, respiremos aqui um pouco e comecemos com felicidade um curso de sabedoria e de estudos engenhosos. pisa, célebre pela gravidade de seus cidadãos, deu-me o ser, como o deu a meu pai, mercador de grandes relações, chamado vicêncio, descendente dos bentivoglio. o filho de vicêncio, educado em florença, realizará as esperanças fundadas nele, ao adornar sua fortuna com ações virtuosas. e assim, trânio, durante o tempo de meus estudos, aplicar-me-ei à virtude e àquela parte da filosofia que trata da felicidade que a virtude procura especialmente. dize-me o que pensas, pois abandonei pisa e vim a pádua como um homem que deixa um charco pouco profundo para mergulhar num oceano e procura com ânsia estancar a sede.

1. almeida cunha medeiros com oscar mendes:

catarin
a: quanto pior me trata, mais finge gostar de mim. casou-se comigo para fazer-me morrer de fome? os mendigos que pedem na porta de meu pai só precisam estender a mão para receberam a esmola. se não lhes é dada, encontram a caridade noutra parte. mas eu, que nunca pedi nada, que jamais tive necessidade de nada, estou com fome por falta de alimentos e estonteada por falta de sono. os praguejamentos me mantêm acordada e o barulho substitui a comida. e o que me mortifica mais ainda que todas essas privações, é que ele faz tudo isso pretextando um perfeito amor. poder-se-ia dizer, ao ouvi-lo, que a alimentação ou o sono me causarão uma enfermidade mortal ou uma morte imediata. por favor, vai buscar-me alguma coisa para comer, não importa o que seja, desde que seja um alimento que me faça bem.

2. alex marins:

ca
tarina: quanto pior me trata, mais finge gostar de mim. casou-se comigo para fazer-me morrer de fome? os mendigos que pedem na porta de meu pai só precisam estender a mão para receberam a esmola. se não lhes é dada, encontram a caridade noutra parte. mas eu, que nunca pedi nada, que jamais tive necessidade de nada, estou com fome por falta de alimentos e estonteada por falta de sono. os praguejamentos me mantêm acordada e o barulho substitui a comida. e o que me mortifica mais ainda que todas essas privações, é que ele faz tudo isso pretextando um perfeito amor. poder-se-ia dizer, ao ouvi-lo, que a alimentação ou o sono me causarão uma enfermidade mortal ou uma morte imediata. por favor, vai buscar-me alguma coisa para comer, não importa o que seja, desde que seja um alimento que me faça bem.

pode uma coisa dessas?!



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



4 comentários:

  1. Jorge Furtado27.2.10

    Longe de mim querer provocar polêmicas, mas tenho a clara impressão que a tradução de Cunha Medeiros e Oscar Mendes para “A Megera Domada”, publicada pela primeira vez em 1969 pela Nova Aguilar, se baseia menos no original de Shakespeare e mais na tradução para o espanhol feita por Luis Astrana Marin em 1941.

    (A Megera Domada, IV,3)

    O original:

    KATHARINA
    The more my wrong, the more his spite appears:
    What, did he marry me to famish me?
    Beggars, that come unto my father's door,
    Upon entreaty have a present aims;
    If not, elsewhere they meet with charity:
    But I, who never knew how to entreat,
    Nor never needed that I should entreat,
    Am starved for meat, giddy for lack of sleep,
    With oath kept waking and with brawling fed:
    And that which spites me more than all these wants,
    He does it under name of perfect love;
    As who should say, if I should sleep or eat,
    'Twere deadly sickness or else present death.
    I prithee go and get me some repast;
    I care not what, so it be wholesome food.

    A tradução de Astrana Marin:

    CATALINA
    Cuanto peor me trata, más finge quererme. ¿Se ha casado conmigo para hacerme morir de hambre? Los mendigos que llaman a la puerta de mi parde no tienen sino tender la mano para ricibir uma limosna. Si nos les da, encuentran la caridad em outra parte. Pero yo, que nunca he pedido de nada, que jamas he nesecitado de nada, estoy privada de alimento y falta (sic) de sueño. Los juramentos me tienen despierta y el ruido remplaza los platos. Y lo que más me encorajina es la manera de hacerlo, toda bajo pretexto de que me ama. Dijera-se, escuchándolo, que el alimento y el sueño me causarán una enfermedad mortal o una muerte repentina. Por favor, va a buscarme algo de comer, cualquier cosa, siempre que sea conveniente.

    A tradução de Almeida Cunha Medeiros e Oscar Mendes:

    CATARINA
    Quanto pior me trata, mais finge gostar de mim. Casou-se comigo para fazer-me morrer de fome? Os mendigos que pedem na porta de meu pai só precisam estender a mão para receberam a esmola. Se não lhes é dada, encontram a caridade noutra parte. Mas eu, que nunca pedi nada, que jamais tive necessidade de nada, estou com fome por falta de alimentos e estonteada por falta de sono. Os praguejamentos me mantêm acordada e o barulho substitui a comida. E o que me mortifica mais ainda que todas essas privações, é que ele faz tudo isso pretextando um perfeito amor. Poder-se-ia dizer, ao ouvi-lo, que a alimentação ou o sono me causarão uma enfermidade mortal ou uma morte imediata. Por favor, vai buscar-me alguma coisa para comer, não importa o que seja, desde que seja um alimento que me faça bem.

    x

    Imagino que parte significativa da tradução de Oscar Mendes e Cunha Medeiros para as obras completas de William Shakespeare (não toda, não o Hamlet, por exemplo) é baseada da tradução para o espanhol de Astrana Marin.

    Troquei e-mails com Ivo Barroso sobre este fato e ele, sabiamente, minimizou sua importância. Disse que as traduções do russo e do inglês de versões em francês ou espanhol eram comuns. E mais: algumas, segundo Ivo, são melhores que tentativas recentes de traduções direto dos originais. Imagino que ele tenha razão.

    Abraço

    Jorge Furtado

    Sobre Luis Astrana Marin:
    http://es.wikipedia.org/wiki/Luis_Astrana_Mar%C3%ADn

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  2. muitíssimo interessante, jorge.
    naturalmente tradução por interposição não é crime, até foi prática muito corrente entre nós e ainda hoje é utilizada. mas normalmente indica-se a edição que serviu de base à tradução. a pena é quando não se informa o fato na imprenta do livro ou menciona-se apenas o original e não a tradução usada na interposição - aí sim implicitamente sugere-se que a tradução foi feita do original, o que seria tanto mais plausível por ser inglês, e não sueco ou sânscrito...
    vou informar a prof. márcia peixoto do rio, que mantém o banco de dados mais completo sobre traduções de shakespeare no brasil.
    para a história da tradução literária no brasil, realmente julgo uma informação da maior importância.
    agradeço muito
    denise

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  3. Jorge Furtado3.3.10

    Alô Denise

    Mais comparações Shakespeare/Cunha Medeiros e Oscar Mendes/ Astrana Marin, aqui num trecho de "Troilo e Cressida":

    Original: “'tis mad idolatry to make the service greater than the god and the will dotes that is attributive to what infectiously itself affects, without some image of the affected merit.”

    Luis Astrana Marin: “Hacer el culto mas grande que el dios es loca idolatria, y la pasión delira cuando atribuye cualidades de que es fanática a um objeto que no tiene ni sombra de este mérito apreciado”.

    Cunha Medeiros e Oscar Mendes: “Fazer o culto maior do que o deus, é louca idolatria e a paixão delira quando atribui qualidades de que é fanática a um objeto que não tem nem sombra deste mérito apreciado”.

    Escrevi sobre isso em:
    http://www.casacinepoa.com.br/o-blog/jorge-furtado/vontade-que-se-inclina-ante-imagem-que-ela-própria-eleva

    Abraço

    Jorge Furtado

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  4. Jorge Furtado3.3.10

    William Shakespeare

    The Taming of the Shrew (I,1)

    Lord
    Even as a flattering dream or worthless fancy.
    Then take him up and manage well the jest:
    Carry him gently to my fairest chamber
    And hang it round with all my wanton pictures:
    Balm his foul head in warm distilled waters
    And burn sweet wood to make the lodging sweet:
    Procure me music ready when he wakes,
    To make a dulcet and a heavenly sound;
    And if he chance to speak, be ready straight
    And with a low submissive reverence
    Say 'What is it your honour will command?'
    Let one attend him with a silver basin
    Full of rose-water and bestrew'd with flowers,
    Another bear the ewer, the third a diaper,
    And say 'Will't please your lordship cool your hands?'
    Some one be ready with a costly suit
    And ask him what apparel he will wear;
    Another tell him of his hounds and horse,
    And that his lady mourns at his disease:
    Persuade him that he hath been lunatic;
    And when he says he is, say that he dreams,
    For he is nothing but a mighty lord.
    This do and do it kindly, gentle sirs:
    It will be pastime passing excellent,
    If it be husbanded with modesty.


    Luis Astrana Marin

    Lorde
    Como de un sueño engañoso o de una vana fantasia. Levantadle, pues, y combinaremos bien la broma. Transportadle cuidadosamnet a mi más hermosa cámara y engalanadla en torno con mis cuadros mas sugestivos. Perfumad su asquerosa cabeza con aguas de olor y quemad maderas odoríferas para embalsamar su aposento. Procuradme músicosque, al punto de despertar, dejen oir una melodia dulce y celeste. Si acaso habla, estad dispuesto a cumprir sus órdenes y responded haciendo una respetuosa reverencia: "Que desea vuestro honor?" Uno de vosotros se presentará con una palangana de prata llena de agua de rosas, y le rociará con flores. Otro llevará el jarro; un tercero la toalla, y dirá: "Place a vuestra señoria refrescarse las manos?" Que algún esté ya a su disposición con un rico guardarropa y le pregunte con que vestido quiere tocarse. Háblele otro de sus perros e sus caballos y de que su mujer se encuentra desolada por verle enfermo.Persuadidle de que ha estado loco, y si afirma ser lo que es..., respondedle que sueña, porque no es nada menos que un poderoso lord. Hacedlo así, y hacedlo hábilmente, amables señores. Será la broma mas divertida del mundo, si os conducís con discreción.

    x

    Carlos Alberto Nunes

    NOBRE
    Como de um sonho adulador, ou mesmo de inócua fantasia. Carregai-o, portanto, e preparai a brincadeira. Ponde-o com jeito em meu mais belo quarto, que adornareis com quadros mui lascivos; água cheirosa e quente na vazia cabeça lhe passai, e no aposento queimai lenha aromática, deixando cheiroso todo o ambiente. Arranjai música logo que ele acordar, para que toadas possa ouvir agradáveis e divinas. E, se acaso falar, sede solícitos e com profunda e humilde reverência lhe perguntai: “Vossa Honra que deseja?” Um se apresente com bacia argêntea cheia de água de rosas em que pétalas donosas sobrenadem; o jarro outro sustente; o guardanapo, enfim, terceiro, que lhe perguntará: “Vossa Grandeza não quer lavar as mãos?” Vestes custosas tenha alguém prestes, para perguntar-lhe que muda ele prefere; outro lhe fale de seus cavalos e dos cães de caça, e lhe diga que a esposa ainda lastima sua infelicidade, convencendo-o de que esteve lunático. E se acaso declarar seu estado verdadeiro, dizei que está sonhando, pois, de fato, ele é um nobre importante. Fazei isso, gentis senhores, sim, porém, com jeito. Passatempo será muito agradável, se discrição souberdes ter em tudo.

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