26 de fev de 2009

desta maneira sinistra...

carlos chaves se soma à legião dos tradutores que perderam sua identidade à sanha editorial. sua tradução (1954) de aventuras de sherlock holmes agora engrossa o curriculum mortis de jean melville, na martin claret.* a tradução de carlos chaves consta no catálogo ativo da melhoramentos. consultei a editora a este respeito, não tive resposta. em vista do curioso antecedente das memórias de sherlock holmes, aqui noticiado, talvez seja um caso parecido. em todo caso, plágio é plágio, sempre indesculpável.

* na verdade, a edição da claret está cadastrada na fbn/isbn em nome de pietro massetti [sic, massetti].
as aventuras originais trazem doze histórias; na edição da claret, constam apenas nove delas. o padrão do plágio é por substituição eventual de termos ao longo de todo o livro, além de alteração dos parágrafos, abrindo novos onde não existem e continuando o parágrafo anterior quando se abririam novos.

1. as cinco sementes de laranja (carlos chaves)

desta maneira sinistra foi que entrei na posse de minha herança. poderá bem me perguntar por que não a vendo e eu lhe responderei que tenho quase certeza de que nossa infelicidade se relacionava e dependia de algum incidente na vida de meu tio e que o perigo continuaria tanto numa casa como em outra. foi em janeiro de 85 que meu pobre pai encontrou a morte e já se passaram dois anos e oito meses. durante todo esse tempo vivi feliz em horsham e tinha esperanças de que essa maldição na família houvesse passado e que terminava na última geração. [...]
- tenho uma vaga lembrança - disse ele - de que no dia em que meu tio queimou os papéis, eu reparei que as pequenas margens que não estavam queimadas e que jaziam entre as cinzas, eram desta cor. achei esta única folha no chão do quarto dele, e estou inclinado a pensar que seja um dos papéis que talvez se desprendeu dos outros, escapando assim à destruição. além do fato de se referir às sementes não sei em que nos possa ajudar. (pp. 113-15)

2. cinco sementes de laranja ("jean melville")

dessa maneira sinistra foi que entrei na posse de minha herança. poderá bem me perguntar por que não a vendo, e eu lhe responderei que tenho quase certeza de que nossa infelicidade era decorrência de algum incidente na vida de meu tio, e que o perigo continuaria tanto numa casa como na outra. foi em janeiro de 85 que meu pobre pai encontrou a morte, e já se passaram dois anos e oito meses. durante todo esse tempo vivi feliz em horsham, com esperanças de que essa maldição na família houvesse passado e que terminava na última geração. [...]
- tenho uma vaga lembrança - disse ele - de que no dia em que meu tio queimou os papéis, eu reparei que as pequenas margens que não estavam queimadas e que jaziam entre as cinzas eram desta cor. achei esta única folha no chão do quarto dele, e estou inclinado a pensar que seja um dos papéis que talvez se desprendeu dos outros, escapando assim à destruição. além do fato de se referir às sementes, não sei em que nos pode ajudar. (pp. 94-96)

1. a coroa de berilos (carlos chaves)

o senhor, naturalmente, sabe que um banco em franco progresso depende muito da obtenção de investimentos remunerativos para o dinheiro, porque isto aumenta as nossas relações e o número de nossos depositantes. um dos meios mais lucrativos de despender o dinheiro são empréstimos, onde a segurança é completa. durante estes últimos anos temos feito muito nesse setor. há muitas famílias nobres a quem temos adiantado grandes somas, aceitando como garantia seus valiosos quadros, bibliotecas ou pratarias.

ontem, estava sentado em meu escritório, no banco, quando um dos escriturários me trouxe um cartão de visita.

estremeci quando vi o nome porque não era outro senão... bem acho que nem ao senhor devo revelar, basta dizer que é um nome pronunciado em todas as casas e no mundo inteiro, um dos nomes mais nobres, mais exaltados na inglaterra. (p. 244)

[...] o senhor supõe que seu filho levantou-se da cama, e foi, com grande risco, ao seu quarto de vestir, abriu seu bureau, tirou sua coroa, quebrando uma parte dela à força, foi-se para outro lugar e escondeu três das gemas com tanta habilidade que ninguém as encontra, depois voltou com as outras 36 gemas para o quarto, onde ele se expôs ao grande perigo de ser descoberto. pergunto-lhe, é sustentável tal teoria?
- mas pode haver outra? exlamou o banqueiro com um gesto de desespero. - se os motivos dele eram inocentes, por que não os explica? (p. 253)

2. o caso da coroa de berilos (jean melville)

o senhor certamente sabe que um banco em franco progresso depende muito da obtenção de investimentos remunerativos para o dinheiro, pois isso aumenta as nossas relações e o número de nossos depositantes. um dos meios mais lucrativos de dispender o dinheiro são empréstimos, nos quais a segurança é completa. nos últimos anos, temos feito muito nesse setor. há muitas famílias nobres a quem temos adiantado grandes somas, tomando em garantia seus valiosos quadros, bibliotecas ou pratarias. ontem, estava eu sentado em meu escritório, no banco, quando um dos escriturários me trouxe um cartão de visita. estremeci quando vi o nome, porque outro não era senão... bem, acho que nem ao senhor devo revelar, basta dizer que é um nome pronunciado em todas as casas e no mundo inteiro. um dos nomes mais nobres, mais exaltados da inglaterra. (p. 170)

[...] o senhor supõe que seu filho levantou-se da cama, e foi, com grande risco, ao seu quarto de vestir, abriu seu bureau e tirou a coroa, quebrando uma parte dela à força. então foi para outro lugar e escondeu três das gemas com tanta habilidade que ninguém as encontrou até agora, voltando depois com as outras 35 gemas para o quarto, onde se expôs ao enorme perigo de ser descoberto. pergunto-lhe, é sustentável tal teoria?
- e pode haver outra? exlamou o banqueiro com um gesto de desespero.
- se os motivos dele eram inocentes, por que não os explica? (p. 178)

naturalmente essas sinistras aventuras claretianas se encontram nos valhacoutos favoritos dos ishpertos: livraria cultura, livrarias curitiba, livraria da travessa, fnac, saraiva...
como dispõe o art. 104, no capítulo referente às sanções civis que aplicam às violações dos direitos autorais, da lei 9.610/98, as livrarias são solidariamente responsáveis com o editor responsável pela fraude: a meu ver, seria muito importante que as livrarias começassem a exercer um maior discernimento na seleção das obras que colocam à disposição do público consumidor.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

4 comentários:

  1. Denise,
    eu acredito que o plágio começará a ser punido somente quando as livrarias começarem a retirar os exemplares. O bolso, único lugar sensível de qualquer flibusteiro (adoro essa palavra!) é que precisa ser atingido.

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  2. raquel, concordo! aliás, acho um absurdo que as livrarias continuem belas e formosas vendendo essa porcariada. afinal são elas a "interface" (argh!) entre a editora e o leitor. no fundo, acabo achando que elas são tão ou mais responsáveis que o delinquente lá na ponta.

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  3. Carlos Chaves foi meu tio -- o irmão mais velho de meu pai, Oscar Chaves. Nasceu, como todos os irmãos, em Patrocínio, MG. Lamento que isso esteja acontecendo com a magnífica tradução que fez.

    Eduardo Chaves
    eduardo@chaves.combr
    ec.spaces.live.com
    (Ex-Professor Titular de Filosofia da UNICAMP)

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  4. olá, eduardo, agradeço a informação.
    o mais triste é que até as referências mais básicas sobre a existência do autor da tradução acabam se perdendo.

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