11 de ago de 2008

que coisa...


a gente é boba e ignorante, mas é meio curiosa e acaba indo atrás de umas coisas.
como comentei num post anterior, estranhei a martin claret publicando traduções consagradésimas de shakespeare feitas por carlos alberto nunes.

e claro que, antes de seguir adiante, a gente vai se certificar dos fatos para não dizer bobagem.

então, na semana passada, liguei para a ediouro, e lá conversei com uma moça muito gentil, chamada cristiane. ela confirmou que as traduções de carlos alberto nunes ainda pertenciam à ediouro e demonstrou sincera surpresa e preocupação ao saber das recentes edições da martin claret. até porque, disse ela, estão preparando uma edição de luxo, em três volumes, das obras completas de shakespeare com lançamento previsto para o natal, e comentou que verificaria imediatamente com seu jurídico. eu disse a ela que não precisava, bastava consultar sua coordenadoria editorial. mas aí ela explicou que na verdade havia algumas negociações com a claret que passavam pelo jurídico, e que iria verificar.

bom, jurídico é jurídico e não se discute.

hoje entrei novamente em contato com cristiane da ediouro, para pegar a confirmação antes de sair em disparada atrás dos abana-pêras da claret. aí ela me explicou longamente, mas sem especificar os detalhes, que a ediouro tem algumas pendências com a claret e que as negociações das tais pendências incluíam um pacote de títulos da ediouro com publicação na claret e que, como o pacote era meio grande, ainda não tinham conseguido conferir se os abana-pêras faziam parte da negociação.

não tenho nada a ver com os negócios das editoras, apenas, como cidadã e leitora, com os livros que elas publicam. mas fiquei curiosa em saber que pendências seriam essas, capazes de envolver um tal pacote de títulos da maior, ou segunda maior, editora do brasil com a editora campeã em nassettis, marins e melvilles...

há mais detalhes, como títulos, datas e tradutores, no imbróglio claret/ediouro, em e o destino do bardo em terra brasilis. [dou de barato, naturalmente, que todo mundo sabe quem foi carlos alberto nunes.]

7 de ago de 2008

o destino do bardo em terra brasilis

será que esse povo não se compadece do leitor e não se horroriza com o que está acontecendo com nosso patrimônio lítero-tradutório?

o guilherme abana-pêra da martin claret, na coleção "obra-prima de cada autor", desde 2001 e com várias reedições, é assim:

vol. 39 - hamlet - pietro nassetti
vol. 57 - rei lear - pietro nassetti
vol. 93 - romeu e julieta - jean melville
vol. 98 - macbeth - jean melville
vol. 123 - otelo - jean melville
vol. 152 - a megera domada - alex marins
vol. 201 - sonho de uma noite de verão - jean melville
vol. 219 - a tempestade - carlos alberto nunes
vol. 241 - o mercador de veneza - oscar mendes e cunha medeiros
vol. 249 - sonetos - jerónimo de aquino
vol. 259 - júlio césar - carlos alberto nunes
vol. 260 - antônio e cleópatra - carlos alberto nunes

até o vol. 201, eram os ectoplasmas da casa com suas tesouras e bastão de cola.

a partir de a tempestade, a coisa muda de figura.

até onde sei, os direitos patrimoniais das traduções de carlos alberto nunes pertencem à ediouro.

já os direitos patrimoniais das traduções de oscar mendes e cunha medeiros pertencem à nova aguilar (também da ediouro, mas com gestão própria).

os direitos morais pertencem aos respectivos herdeiros.

[quanto a jerónimo de aquino, o google não foi suficiente para socorrer à minha ignorância. o máximo que consegui vagamente entender é que foi um poeta português que, no século XVIII, traduziu os sonetos de shakespeare, e que foi resgatado do fundo do baú por - ora quem - o mesmo carlos alberto nunes. mas nem isso posso afiançar. se for este o caso, seria domínio público, em se dando os devidos créditos pelo desempoeiramento. ] atualizado em agosto de 2010: jerônimo de aquino foi professor do curso da escola normal de guaratinguetá por volta dos anos 1940. traduziu os 154 sonetos de shakespeare, publicados em edição bilíngue, com prefácio de carlos alberto nunes, pela editora melhoramentos, em 1956, como volume XXII das obras completas pela mesma editora. as traduções de jerônimo de aquino ainda não estão em domínio público.

contrafação, reprodução não-autorizada, plágio, não interessa: fraude sempre é.

dona ediouro, veja lá o que está acontecendo em seu pomar, pois daqui a pouco não vai ter mais o que abanar.

cadê minhas peras que estavam aqui?!

imagens: smiley, awww; www.icn.pt

6 de ago de 2008


a martin claret passou anos atribuindo a seus indefectíveis jeans melvilles e pietros nassettis umas colchas de retalhos de shakespeare, com vastos remendos de oscar mendes/cunha medeiros, alguns elementos decorativos de bárbara heliodora e até uns pespontos coloridos de onestaldo de pennafort.*

aí, de uma hora para outra, a claret passou a publicar as consagradésimas traduções de carlos alberto nunes, antigamente editadas pela melhoramentos e depois, e até o momento, sempre pela ediouro.

terá havido algum contrato de cessão ou sublicenciamento dos direitos de tradução? e, se não, estará a ediouro correndo atrás do lesa-lesa?

* a quem se interessar pelo assunto, existe uma dissertação de mestrado muito meticulosa, escrita por márcia paredes nunes, letras, puc-rj, 2007, com cotejos detalhados das várias traduções.

imagem: http://respectance.com

3 de ago de 2008

follow-up


decerto todos lembram a cautelar que a l&pm impetrou contra a nova cultural.

em todo caso reproduzimos abaixo, e damos o andamento da questão nos itens 2 e 3, abaixo:

1. L&PM questiona Nova Cultural sobre traduções
Por L&PM Editores

A L&PM Editores ajuizou medida acautelatória (Processo Cautelar 001/1.08.0127989-9 – 19ª Vara Cível de Porto Alegre) contra a EDITORA NOVA CULTURAL LTDA., visando ressalvar e prevenir direitos diante das denúncias e evidências em relação a falsificação de traduções.

Com o dito procedimento judicial, a L&PM antecipa a decisão de anular o contrato celebrado com a EDITORA NOVA CULTURAL LTDA., em relação a diversas traduções.

Recorda-se que a relação entre as duas empresas começou quando a NOVA CULTURAL propôs a aquisição das traduções (de propriedade da L&PM) dos livros: Romeu e Julieta, Macbeth e Otelo. Como forma de pagamento pela cessão dos direitos das mencionadas traduções, a NOVA CULTURAL ofereceu, em permuta, – e a L&PM aceitou – a cessão dos direitos de três traduções: Divina Comédia, Madame Bovary, Viagens de Gulliver e as notas de Dom Quixote (cuja tradução é de domínio público).

Ocorre que, desde o ano passado, vêm surgindo crescentes denúncias, segundo as quais as traduções dos livros Divina Comédia e Madame Bovary, cujos direitos foram transferidos à L&PM, além de outras traduções da NOVA CULTURAL, seriam falsas. Isto é: os nomes dos tradutores mencionados nos contratos e nas edições da NOVA CULTURAL seriam falsos, e que as traduções seriam apenas cópias ou plágios de outras traduções. Conforme publicações na “Folha de S. Paulo”, no jornal “O Globo” e em outros órgãos de imprensa, segundo foi denunciado por um grupo de tradutores, as traduções de propriedade da NOVA CULTURAL são plágios de traduções anteriores, consideradas clássicas e de autoria de prestigiosos autores e tradutores.

Um exame superficial das versões brasileiras de dois dos livros cedidos à L&PM, pela NOVA CULTURAL, como sendo de propriedade legítima da NOVA CULTURAL, na verdade revela que se trata de uma cópia grosseira de tradução anterior. A Divina Comédia, de Dante Alighieri, supostamente tradução de “Fábio Alberti” (que não se sabe se é nome verdadeiro ou pseudônimo de alguém) é uma cópia de tradução anterior, muito conhecida, de Hernâni Donato. Da mesma forma, o livro Madame Bovary, de Gustave Flaubert, cuja tradução negociada à L&PM seria supostamente de “Enrico Corvisieri”, na verdade vem sendo denunciada como cópia da antiga tradução de Araújo Nabuco.

A lista de outros títulos que, segundo as denúncias publicadas nos jornais, utilizaram tradução adulterada e/ou plágio de tradução anterior, pela Nova Cultural, é longa:
“CRIME E CASTIGO”, Dostoiévski: Trad. sem crédito seria de Natália Nunes.
“CYRANO DE BERGERAC”, Edmond Rostand: Trad. de F. Alberti seria de Porto Carreiro.
“O VERMELHO E O NEGRO”, Stendhal: Trad. de Mª da Silva seria de Luiz Costa Lima.
“ANA KARÊNINA”, de Tolstói: Trad. de Mirtes Coscodai seria de João Gaspar Simões.
“O LEOPARDO”, de Lampedusa: Trad. de Leonardo Codignoto seria de Rui Cabeçadas. “FAUSTO” E “WERTHER”, Goethe: Trads. de Alberto Maximiliano seriam de Silvio Meira e Galeão Coutinho.
“CONTOS”, Voltaire: Trad. de Roberto Domenico Proença seria de Mário Quintana.
“O MORRO DOS VENTOS UIVANTES”, Emily Brontë: Trad. de Silvana Laplace seria de Oscar Mendes.
“O FALECIDO MATTIA PASCAL” e “SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR”, Pirandello: Trads. de Fernando Corrêa Fonseca seriam de Mário da Silva, Brutus Pedreira e Elvira Ricci.
“TOM JONES”, Fielding: Trad. de Jorge Pádua Conceição seria de Octavio Cajado.
“NANÁ”, Zola: Trad. de Roberto Valeriano seria de Eugênio Vieira.
“O RETRADO DE DORIAN GRAY”, Wilde: Trad. de E. Corvisieri seria de Oscar Mendes.
“A MULHER DE 30 ANOS”, Balzac: Trad. de Gisele Soares seria de José Maria Machado.
“OS TRÊS MOSQUETEIROS”, Dumas: Trad. de M. Coscodai seria de Octavio Cajado.
“LORD JIM”, Conrad: Trad. de Carmen Lomonaco seria de Mário Quintana.
“UMA VIDA”, Maupassant: Trad. de Roberto Proença seria de Ascendino Leite.
“SUAVE É A NOITE”, Scott Fitzgerald: Trad. de E. Corvisieri seria de Lígia Junqueira.
“IVANHOÉ”, Walter Scott: Trad. de Roberto Whitaker seria de Brenno Silveira.

Decepcionada e perplexa pelo silêncio e pela falta de explicações convincentes da NOVA CULTURAL diante dessas denúncias gravíssimas, a L&PM decidiu formalizar as medidas legais cabíveis à defesa de seus direitos e interesses.

A L&PM, claramente, é um terceiro de boa fé, vítima de uma fraude e, por isso, buscou o Poder Judiciário.

No procedimento judicial ajuizado, na forma dos arts. 867 e seguintes do Código de Processo Civil, a L&PM declara sua decisão de buscar a anulação do contrato celebrado entre as partes, com o cancelamento da cessão das traduções, de propriedade da notificante L&PM.

Igualmente, a L&PM torna público que está retirando de catálogo e recolhendo os exemplares em circulação das edições de livros da notificante lançados a partir das “traduções” cedidas pela notificada.

Através de perícia técnica, a L&PM está apurando os prejuízos que sofreu – e está sofrendo – em conseqüência da fraude tornada pública. Apurados os prejuízos, a L&PM cobrará judicialmente os prejuízos materiais e morais decorrentes dos fatos aqui noticiados.

2. Declaração do sr. Ivan Pinheiro Machado em julho 2008
"O pessoal da NC esteve aqui, em POA, muito gentis e aparentemente consternados... Não se falou em dinheiro. Nossa posição foi a mesma. Fizemos ver a eles que jamais a L&PM tinha tido um abalo tão grande. Nem a ditadura - que quase nos quebrou - conseguiu arranhar a nossa imagem pública, proeza que a NC conseguiu ao vender traduções falsas. Falamos em reparação de danos morais e danos materiais, sendo que a dos danos morais nós pretendemos doar para alguma entidade. E recusamos qualquer acordo entre 4 paredes. Tudo será público, com a devida divulgação a partir do nosso site."

3. Nova declaração do sr. Ivan Pinheiro Machado em agosto 2008
"Com a N. Cultural, vamos pedir que eles veiculem em jornais nacionais de grande circulação um comunicado informando que a L&PM editores não tinha conhecimento de que as traduções eram adulteradas e que eles (N. Cultural) assumem a responsabilidade e pedem desculpas à editora. [...] Na verdade é uma barbaridade o que se faz neste país."
imagem: lanternaacesa.blogspot.com