30 de nov de 2008

como esquecer?


como sempre, matisse, à vontade na cor e na forma, como um grande tradutor entre as palavras

se eu puder opinar, e sem querer desfazer de vários outros aspectos envolvidos no problema do plágio como prática editorial sistemática, concordo com francis h. aubert quando ele diz, em comentário deixado aqui no blog:

"O que mais incomoda no plágio é o apagamento, a tabula rasa que faz do esforço, da dedicação, da perseverança do plagiado. Gera uma falsidade não apenas pessoal, mas histórica, que assim perde sua credibilidade."

e acrescento: se se multiplicar essa tabula rasa por dezenas e dezenas de nomes (godofredo rangel, casimiro fernandes, wilson lousada, mário quintana, péricles eugênio da silva ramos, jamil almansur haddad, lívio xavier, ligia junqueira, boris schnaiderman, modesto carone e tantos, tantos outros), o apagamento é quase de toda a história da formação cultural e literária em nosso tão colonial brasil na primeira metade do século XX, e mesmo mais além...

pois como alguém pode ler essa frase tão bonita, tão à vontade em nossa língua:

"Nos montes de Seeonee, ali pelas sete horas daquele dia tão quente, Pai Lobo despertava do seu longo sono, espreguiçava-se, bocejava e estirava as pernas para espantar a lombeira entorpecente."

ou:

"Os menores rumores nas ervas, o movimento das brisas, as notas do canto da coruja, cada arranhadura que a garra dos morcegos deixa na casca das árvores onde se penduram por um momento, a lambada n'água de cada peixinho ao dar pulos na superfície - tudo significa muito para os animais da floresta."

e não reconhecer aí uma inesquecível, uma indescritivelmente bela aula de amor à própria língua? com os peixinhos, com a lambada n'água, a lombeira, o espreguiçar, os pulos?

como acreditar que isso tenha sido escrito por um fantasma pavoroso, um ectoplasma apodrecido, chamado alex marins, numa das mais inidôneas editoras deste país, martin claret?

como esquecer monteiro lobato?


imagem: matisse, www.tounotopos.blogs.sapo.pt





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