10 de mai de 2008

o mestre da modéstia III

Sete Fragmentos para um Retrato (conclusão)

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Como muitos judeus alemães, Herbert Caro recebeu, como ele mesmo me disse várias vezes, uma educação basicamente laica. Para compreender melhor esse fenômeno, deve-se lembrar que uma das melhores possibilidades de ascensão social para um judeu alemão no séc. XIX era a participação na cultura burguesa do país, tal como ela se articulara na literatura e na música. Participar da cultura oficial ou mesmo promovê-la significava emancipar-se das estreitezas da condição judaica numa sociedade na qual o anti-semitismo estava profundamente arraigado. Essa é uma das razões da presença marcante dos intelectuais de origem judaica nas universidades alemãs. Essa é uma das razões da presença dos artistas de origem judaica, sem os quais a cultura alemã simplesmente teria sido outra.

A família de Herbert Caro não foi exceção. Eu mesmo o percebi em 1968 e nos anos posteriores muito mais como alemão do que como judeu. Sua condição judaica sempre me pareceu comparativamente secundária e mesmo marginal. Na sua biblioteca, ela era discretamente indicada por um retrato emoldurado de Moses Mendelssohn. Ainda em 1992 a sua viúva me disse que ele chegou ao Brasil sem o menor interesse pelas tradições culturais e religiosas do judaísmo. O exílio e as notícias do holocausto despertaram nele a consciência da sua origem, da existência de algo que ultrapassava os limites da construção autônoma da identidade. Pouco a pouco ele passou a freqüentar a sinagoga. Foi um dos fundadores da SIBRA (Sociedade Israelita Brasileira de Cultura e Bene-ficiência), que congregava os judeus de origem alemã. Nina Caro me disse ainda em 1992 que ele passou a assumir cada vez mais a sua origem judaica, em solidariedade aos seus companheiros de exílio. Ele mesmo me afirmou no início dos anos oitenta que era um dos poucos judeus de Porto Alegre que ainda sabiam recitar as velhas orações fúnebres, o que lhe valia muitos convites para velórios. Cumpria esse dever piedoso sem alarde, discretamente, e com um grão de ironia e ceticismo.

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Herbert Caro foi também alemão no seu medular apoliticismo. Lembro-me bem do início dos anos 70, quando comecei a compreender as conseqüências do golpe militar de 1964 e do fim do Estado de Direito, coroado com o escabroso AI-5 e pelo conseqüente desrespeito dos direitos humanos, o terrorismo governamental, a tutela das universidades por militares, a cassação de professores e parlamentares, a perseguição aos estudantes, sindicalistas e opositores, as prisões sem mandado nem acompanhamento judicial, as torturas e os assassinatos - tolerados, ocultados ou mesmo promovidos pelo governo, aplaudidos aberta ou discretamente ou consentidos pela classe média -, o amordaçamento da imprensa, a vitória da mediocridade na vida pública.

Na medida em que eu adquiria consciência dessa realidade e ia perdendo com vergonha crescente a ingenuidade da ignorância, custava a compreender por que Herbert Caro, que fugira da Alemanha de Hitler, não se sensibilizava com esses crimes - diferentemente do seu grande amigo Érico Veríssimo, que recusara a concessão do título de doutor honoris causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, alegando não poder aceitar tal honraria de uma universidade que tinha cassado professores. Não quero justificar essa atitude do velho amigo, mas creio poder compreendê-la melhor nos dias atuais. À semelhança de muitos intelectuais alemães de inclinação liberal, ele percebia a política como algo imundo, negativo. O melhor era ficar de fora e não sujar as mãos. Talvez o silêncio de Herbert Caro diante das ignomínias do regime militar tivesse uma segunda razão, ditada pela milenar prudência do judeu errante: por que ele, emigrado da Europa para não ser enxotado ou encaminhado à solução final, haveria de se meter em embrulhos?

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Herbert Caro gostava muito de jogos de palavras. Qualquer fato, por miúdo que fosse, servia de pretexto para engendrá-los. Quando o mot d'esprit não surgia ao natural, Herbert Caro fabricava-o pacientemente. Vistos à distância, esses jogos de palavras não são difíceis de datar. Na sua maioria, expressam um humor manso e inofensivo, cheio de bonomia, ligeiramente vitoriano e nesse sentido anacrônico. Merecem freqüentemente a crítica de Karl Kraus: Was nicht trifft, trifft auch nicht zu – O que não fere, não confere. Lembro-me, no entanto, de um, que hoje ainda é citável e está soterrado em uma das crônicas reunidas na antologia Balcão de Livraria, publicada pelo Instituto Nacional do Livro em 1960. Herbert Caro toma como mote um desfile de calouros pelo centro de Porto Alegre, faz alguns comentários sobre o significado da universidade e das liberdades acadêmicas na Europa tradicional e arremata a descrição da passeata com a seguinte frase: Estavam presentes todas as faculdades, com exceção das mentais.

Peter Naumann, intérprete de conferências (texto escrito em 1994)


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