16 de abr de 2008

o mestre da modéstia I

um querido amigo, peter naumann, que sabe do respeito que tenho pelo discretíssimo mestre herbert caro, envia esse perfil, que chegou a ser nomeado "definitivo" pelo saudoso gerd bornheim:


SETE FRAGMENTOS PARA UM RETRATO

1
Conheci Herbert Caro em fins de 1968, quando estava me preparando para o vestibular na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Ainda me lembro dele, sentado na estreita biblioteca da sede antiga do Instituto Goethe na subida da Rua Dr. Flores. Reinava na biblioteca no turno da tarde e orientava os freqüentadores interessados em literatura alemã. Quando alguém aparecia e perguntava pelos livros de Johannes Mario Simmel, dizia não conhecer esse autor e remetia o visitante à sua ajudante do turno da manhã, que cuidava mais da literatura que os alemães chamam "trivial".

Classificava os seus leitores de acordo com a sua preferência por Johannes Mario Simmel, um dos autores de best-sellers mais vendidos, ou Georg Simmel, um filósofo alemão da virada do século. Seus momentos de glória, cada vez mais raros, eram as visitas de leitores dos clássicos da língua alemã do séc. XVIII até a primeira metade do séc. XX. Eram formados por alguns membros da colônia alemã e por imigrantes alemães de origem judaica.

Hoje, passados mais de quatro anos após a sua morte e mais de dois anos depois da morte da viúva, boa parte da literatura alemã da biblioteca de Herbert Caro e da do seu pai está na minha casa.

Lembro-me com saudade de Herbert Caro e de seu amigo, o médico Alexander Preger, outro imigrante alemão de origem judaica, com quem ele tomava um cafezinho todas as tardes de segunda à sexta-feira num bar da Rua Andrade Neves, às 15:00 hs, perpetuando ao sabor de um cafezinho bem brasileiro a sociabilidade do intelectual berlinense do fim dos anos vinte.

Os livros estão aqui, mas não posso mais conversar com Herbert Caro na nossa língua materna sobre Heinrich Heine, Theodor Fontane, Heinrich e Thomas Mann, Ludwig Börne, Karl Kraus, Kurt Tucholsky, Alfred Polgar, Arthur Schnitzler, sobre os grandes epistológrafos alemães e aus-tríacos do século passado e da primeira metade do nosso século e sobre outros autores maiores e menores, que ele não freqüentava com fins profissionais, para escrever uma tese ou outra coisa parecida, mas que simplesmente faziam parte da sua vida.

2
Na minha geração talvez eu seja a única pessoa que ainda pode testemunhar um aspecto da personalidade de Herbert Caro, que passou despercebido a quase todos os que o conheceram aqui - com exceção dos judeus alemães, que entretanto se mantiveram relativamente segregados na sua cultura de origem.

Herbert Caro, que estudara Direito para satisfazer o pai, um renomado advogado berlinense, e chegara a doutorar-se sem muito entusiasmo na universidade de Heidelberg, era um homme de lettres à antiga - na sua versão alemã.

As barreiras da língua e da cultura impediram que ele desse a conhecer essa faceta em público. Aqui ele se apresentava na sua versão brasileira - que era uma máscara apropriada para o baile cultural porto-alegrense, mas não revelava a sua verdadeira identidade. Dotado de uma in-vejável e bem treinada memória, ele aprendera rapidamente o português.

Quando chegou ao Brasil, a medida do bom vernáculo se pautava por Ruy Barbosa na oratória e na prosa em geral e pelos parnasianos na poesia. A renovação da Semana de Arte Moderna e dos romancistas de 1930 não surtira maior efeito no Rio Grande do Sul. Predominava o gosto pelas palavras raras e empoladas, pelo rebuscamento na sintaxe, pela mesóclise. Por trás de tudo isso, a norma tácita de que assuntos elevados - como a cultura - demandavam uma línguagem elevada.

Na antiga Editora Globo, Herbert Caro fora encarregado da elaboração de vários dicionários escolares, entre eles um latino-português e um português-alemão. Para se desincumbir da tarefa, leu o dicionário de Cândido de Figueiredo de A a Z e lançou assim as bases do seu conheci-mento do léxico da nossa língua, verdadeiramente prodígioso. Sem a camisa-de-força da gramática e da estilística normativas de então, esse conhecimento invejável certamente teria sido melhor aproveitado.

Quando falava ou escrevia em português, Herbert Caro não se distinguia de muitos notáveis da cultura porto-alegrense tradicional. Os textos eram bem-comportados, as idéias quase sempre também. O padrão culto do português de então determinava-lhe não apenas o estilo, mas o próprio pensamento, que se revestia de gravidade e circunspecção.

Assim ele escreveu certa vez sobre o pianista Roberto Szidon que tinha estudado sob a égide de Ilse Warncke, nossa professora comum. Quem conheceu Ilse Warncke, não pode imaginá-la se-gurando uma égide por cima do jovem Roberto Szidon (aos leitores mais jovens, informo aqui que égide é sinônimo de escudo).

(continua aqui)

Peter Naumann, intérprete de conferências

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